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sexta-feira, 12 de outubro de 2018



PENSAR  O  OLHAR 







1
Um girar sem fim
de que tudo parte a que tudo regressa
um enorme circulo que no fim começa
tudo é partir num regresso que se foi.




2
O passe que pago me parece caro
mas não é
o pouco dinheiro que nele ponho
não paga
aventuras, prazeres e arrelias que com ele tenho
não paga
a selva civilizada em que viajo
sempre nova, sempre imprevista.

É a calcadela
é a moça que se irrita porque lhe tocam
é a moça que procura o toque
é o velho sedutor de olhos piscos
é o encontrão apalpão
são as anedotas vivas
de gente que pensa não o ser.

Há velhas a cair
e crianças a sorrir
há solavancos que tudo revolvem
e protestos que se levantam inúteis.

Adormeço com solavancos
acordo estremunhado, quente curto sono
e a paragem já passou
e eu exercito pernas, corro atrasado
caminho em dia de greve
bato pés porque não chega o transporte
e ele vem cheio e eu não vou, irrito-me
e o mundo é só raiva
que logo passa e descanso.

Na selva de braços e de pernas
me movo entre troncos que se apertam
piso e sou pisado, devolvo encontrões
cair é quase impossível
mas o choque é constante
e quem não gosta aguenta
e quem gosta aproveita. 







3
Vivo e recolho o que a mim vem ter
e do inútil que tudo cobre
de vez em quando, de vez em quando
há beleza que brota de semente
que ninguém semeou
e eu sorrio porque tudo é bom
e as dúvidas são só dúvidas.







4
Acordar e ainda é cedo
não ter ainda que levantar
e lá fora faz frio e eu bocejo quente.

Levantar-me manhã cedo
e no frio que me desperta
sentir que aqueço e vivo.

Não me deitar
embora mo peça o corpo cansado
aguardo que o cansaço pese
e adormeço sem pesadelo.

Sem sono estendo o corpo
peço sono que ainda não tenho
penso com vagar no que já houve
e adormeço no que vai haver.

Prolongo com prazer o bocejo quente
no calor da cama que me adormece
nos lençóis esfrego o corpo que sinto frio
até que adormeço e já o não sinto. 

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