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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

3


 

SEM  PAUSAS  NEM  ARREPENDIMENTOS







1
Forneci batatas
forneci água
forneci o tacho
forneci o fogão e o gás
e nunca tive a chama
que me fodesse.





2
Sinto-me tão breve
momento a momento
neste afundar das certezas que não tenho.

Sem tormento
aguardo incerto
e sossegado
aquilo que sempre houve
e não agarro
sedento.

Sinto-me tão breve
momento a momento
no afundar das certezas que não há.



3
Agora que o sol vai alto e o calor aperta
me sinto sedento de uma sede que desconheço
me faço de um sossego que não existe carente
e aguardo sem pressa o dissipar do que há
na certeza que ainda me mantém

De um nevoeiro que cedo se dissipou
me surgiram cerradas as certezas todas
que cedo se extinguiram
e com elas não morri.






4
Quem sente por mim este fastio que se alonga
esta pungente falta de uma dor que me dói
este sossego que não sossega mansamente quieto.

Quantas palavras se perderam no poço que eu sou
e agora clamam o socorro que não posso
porque não posso sentir o que sou no que sinto.
E longos ses arrastando-se no rasto
que eu persigo em longos trilhos esbatidos
que eu sigo e comigo tudo segue
sem que eu o sinta.

Por nada rangem os meus ossos
no rugido que em mim se abafa de o não poder.
Nada me admira em nada me iludo
nesta ilusão que vivo e de mim se admira.
Não houve aprendizagem que fizesse
atamanquei conhecimento
que agora sinto nas teias que me enredam esvanecidas
por tantas aranhas que por mim pensam
enredado ou arredado
nos escaninhos bolorentos esvanecidos.

Tudo o que engoli é um vasto nada que de mim transborda
carroças silenciosas encaminham fantasmas
que são o que eu sou de os ter tido e nunca os tive.
Penso, penso, penso e nunca (por pensar) me faço mais do que já sou
e por mais que o faça não há brisa que não desfaça
o que penso e se desfaz inútil
no que em mim sinto longo e fútil.

Tenho sensações como todos e ninguém
tenho soluções que se acabam desfiadas na linha podre
que me amarra nas ilusões que eu sou e sinto.
Revolto-me em cada passo do atraso de que me faço
e por mim passam soluções que não abraço
das ilusões que não alcanço.

Que sou eu além de um bolor que se perdeu
que sou eu além do que penso sentir de dor
no que não sinto afinal em nada que me valha
além do que em mim sinto e me falha. 

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