Translate

sábado, 20 de outubro de 2018

6 2010



MOMENTOS 







1
Há momentos de aparecer
ou esquecer.

A vida é feita do que surge.
Há momentos dolorosos
e outros que o não são
mas agora que nada vejo
além da impotência toda do universo
mais a minha bem maior
agora que a dor é constante
e eu nunca senti nada tão vasto tão incontornável
agora tudo se fez ridículo
tudo se resume a pouco
nada tem o sabor que eu perdi.

Aturdido esqueço o que não aparece
o que me faz falta já me sobra
na vastidão deste vazio.

A minha riqueza está nos meus filhos
de que me servem as rugas, o que pensei e o que emburrei
sem eles.
O meu corpo, o meu sentido, a minha vida
é deles
são o que eu não sou de serem mais do que eu
as minhas esperanças, o meu prolongar, a minha perfeição
de serem eles.

Esqueço o vazio agarrando e vendo o que surge
esqueço o que não vejo, o que não surge.

O que perdi é agora o que sempre quis
tudo parece esquecido, tudo perdeu importância.
O que penso é feito de segundos somados um a um
num rasto receoso de perder o que ainda há
agarrado ao que escorrega, ao que desliza, ao precário
que agora parece nada sustentar
e contudo agarra numa teia fina de fragilidades
o que ainda há, o que ainda é 
o que ainda é tudo
e eu guardo, momento a momento
no repouso de quem aparece e eu não esqueço.







2
Momentos de serem longos
ou curtos
momentos que passam
como passa tudo
momentos de dor
momentos de alegria
momentos antes, momentos depois
numa sucessão que por momentos quase pára
mas ainda não o fez
no ser que já era
no é que já foi
no que persiste e ainda procura
a côdea que envolva
os momentos que se acumulam quentes
e depois param e arrefecem
acabam e no que se renovam
nunca mais são os momentos
nos momentos que depois
sucedem.







3
Rio num silêncio respeitoso
da simplicidade de tudo.
A explicação que a nada leva
torna mais importante a noção da maçã
que o sabor dela
derrete as sensações, deixa pensamentos
e ilusões
que se espalham como vírus
pelos momentos todos.

A frescura da relva
já não aquece os pés descalços
e o ar puro da manhã
já parece usado
por camiões de sentimentos perdidos
por momentos respirados e acabados
no acabar de ainda aqui estar
persistente e iludido.





4
Vomito o que penso sentir
e por mim pensa e sente
qualquer um sempre
mas muito, muito mais.

Na hora dos abraços
que já não há
da compreensão
que nunca houve
tudo se ergue tão estreito
que o que vejo
é tão vasto e sem mim
que eu me perco
e tudo é perfeito
fora dos momentos
que nem meus
parecem.















Sem comentários:

Enviar um comentário