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sábado, 8 de dezembro de 2012

Guardar

É um comer de instantes, todos maravilhosos, nem sempre fáceis de digerir e é por isso que se vomita, deitando fora para poder engolir os momentos e a sucessão deles, o cair, o erguer, o antes e o depois.
Farrapos de recordações, rasgam e remendam bocados, regressos esquecidos e pensar de novo, retornando ao tempo de saber tudo e sabendo tão pouco ainda e sempre .
A verdade de cada instante, absoluta, perde a razão e o ser no instante seguinte. De olhos fechados, de olhos abertos e o que vejo é o que sinto no funil de cada instante. Fechados ou abertos num recreio de sensações trocadas, em cada nascer, em cada partir, em cada retorno curto de o pensar.
Foi um ano de muitas mortes, muito recordar, do que guardei, do que sou de vivos e de mortos, de andar ainda com eles a meu lado, repetindo sorrisos e zangas, palavras e silêncio como gotas tão diferentes de haver sempre uma harmonia, no diluir das diferenças.
Morreu a 6 uma senhora linda, contadora de estórias e de vidas, ao ritmo da tesoura que parava, da vassoura que se aquietava para lhe ouvir o riso fácil, um riso menos vibrante desde a morte do marido mas um riso ainda assim cheio de vida. Agora morreu e o que ganhei de a conhecer em nada se perdeu.
As verdades, as certezas são de cada instante o que se ganha e logo perde. Bases ocas assentes no vazio, no acaso que agarra os sentimentos todos e os faz correr ainda           
da vida e da morte
de tantos
se faz correr
a vaidade de quem vive ainda.

2 comentários:

  1. Belo poema, de extrema sensibilidade. Contém uma sonoridade palatável, bem como uma forte construção linguística que encanta... uma típica obra de Arte. Parabéns poeta.

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