É um comer de instantes, todos maravilhosos, nem sempre fáceis de digerir e é por isso que se vomita, deitando fora para poder engolir os momentos e a sucessão deles, o cair, o erguer, o antes e o depois.
Farrapos de recordações, rasgam e remendam bocados, regressos esquecidos e pensar de novo, retornando ao tempo de saber tudo e sabendo tão pouco ainda e sempre .
A verdade de cada instante, absoluta, perde a razão e o ser no instante seguinte. De olhos fechados, de olhos abertos e o que vejo é o que sinto no funil de cada instante. Fechados ou abertos num recreio de sensações trocadas, em cada nascer, em cada partir, em cada retorno curto de o pensar.
Foi um ano de muitas mortes, muito recordar, do que guardei, do que sou de vivos e de mortos, de andar ainda com eles a meu lado, repetindo sorrisos e zangas, palavras e silêncio como gotas tão diferentes de haver sempre uma harmonia, no diluir das diferenças.
Morreu a 6 uma senhora linda, contadora de estórias e de vidas, ao ritmo da tesoura que parava, da vassoura que se aquietava para lhe ouvir o riso fácil, um riso menos vibrante desde a morte do marido mas um riso ainda assim cheio de vida. Agora morreu e o que ganhei de a conhecer em nada se perdeu.
As verdades, as certezas são de cada instante o que se ganha e logo perde. Bases ocas assentes no vazio, no acaso que agarra os sentimentos todos e os faz correr ainda
da vida e da morte
de tantos
se faz correr
a vaidade de quem vive ainda.
Belo poema, de extrema sensibilidade. Contém uma sonoridade palatável, bem como uma forte construção linguística que encanta... uma típica obra de Arte. Parabéns poeta.
ResponderEliminarSó me resta agradecer.
Eliminar