APARÊNCIAS
BANAIS
COINCIDÊNCIAS
1
Tudo é excessivamente neutro
antes de ser nosso.
Parece que estrago o que toco
quando tento que se faça meu
o que toco.
Numa aprendizagem impossível
do que se ganha perdendo
tudo parece emprestado
a um longo jogo de lerpa
neutro até
no escorregar da sorte
que nos permite lerpar.
2
Num desequilíbrio constante
se consegue o equilíbrio de adaptar
constante
as noções que faltam às noções que há.
Agarro sem pressa o que me parece torto
e a meu modo
na perspectiva do momento
corrijo e pouso.
Segundos depois, muitos ou poucos
de novo agarro e de novo está torto
o pensamento, a ideia, o momento todo
que de novo agarro e depois pouso.
Repetem-se as tentativas, esticam-se as palavras
na busca de algo que se possa afirmar
como algo de perfeito
depois de tantas vezes ser tentado.
Perfeito e esquecido no partir de novo
nas procuras que a si mesmas se rodeiam
num circulo que se estreita
e se fecha sempre imperfeito.
3
Formam-se imagens no vazio do espelho
só de nele olhar o longo vazio
deste longo tempo que me desaprendeu.
Perdi o gosto a tudo para o tentar de novo
e assim ocupar o tempo desta paisagem
que a espaços se quebra como noites longas
que a espaços se prolongam
num gozo aparente
de não me dar gozo nenhum.
As mais simples contas parecem ter resultados diferentes
o respirar não é o mesmo
e quando o parece, parece aturdido de o ser.
Esfrego as chagas que teimo.
Que não quero curar
enquanto devagarinho se vão curando
só de se manter vivo o invólucro das tolices a esmo
dos sonhos que se guardam
no constante perder de todos.
A mansidão da água que afoga os pesadelos
indiferente às confusões, devaneios
anseios que nela se afogam
num sonho de paz
num sonho vazio.
4
Ponderar sem pressa
analisar na certeza dos dias longos
na certeza de ainda haver dias
que permitem paragens e a pressa
de tudo ter o seu tempo
o seu
para pensar e repensar
e mesmo assim poder falhar
consciente de o ter feito
como
quem acerta em cheio
no falhanço
e sem choro nem queixas
o aceita.
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