PAPEL BRANCO
1
OLHO
longamente o vazio de uma folha
em branco
e lentamente nela sonho os pesadelos
e os sonhos
possíveis que eu nem conheço.
A todos eu ponho
na brancura do papel
que não sujo, incapaz de o manchar
da brancura suja que por mim pensa
acumulando borrões
luzes e escuridões
QUE AOS SAPATOS
de um caminho de esquinas escusadas
e encontrões colados
se grudam por nadas e por tudo.
2
O silencio é feito
da ausência de som
funciona num vazio periclitante
de vontades amordaçadas
nos corações que ainda assim batem
o ruído intenso da vida
que se recusa
permanente
ao silencio
de uma folha em branco
aos acordes que nada acordam
inexistentes
na brancura de acabarem
na brancura que não há
sem discórdia.
3
O bolor do tempo
passa pelas casas
pelas gentes
e de um inicio esquecido
sobejam sempre as marcas
dedadas
de crianças e não só
que as camadas, camadas de tinta
nunca tapam, de estarem lá
na recusa
no aceitar
na firmeza que enfraquece
na grandeza que de tão pouco cresce
e uma nova camada de novo tapa
mas só cobre
não tapa
e cedo se cobre de novo
de borrões preciosos
de terem tido
a vida que os fez.
As paredes desfazem-se
nas vidas que nelas se consomem
e há dias de tudo ter a importância
de ser importante
e há outros
que nada parece importar
como tijolos colocados
para que outros neles assentem
dividindo a importância da parede
pelas unidades cada vez menores
que a fazem
e nada valem fora dela
e tão pouco
parecem valer nela.
Será que são negros os pesadelos
ou esta brancura tão intensa
e vazia de a preencher
com a vontade
que nela se esvazia
não será somente
a brancura luminosa
que nos faz as sombras
e os pesadelos
de sermos
nela marcados e acabados
como sombras da brancura viva
que por instantes fomos
permitidos.
4
Tentar o retorno
do que não retorna
não conseguir adaptar
o espírito e o corpo
ao que muda
sem que mude, o que dentro
nunca muda
de mudar sempre
lento, tão lento
de tudo ter o tempo de se acabar
mudando sempre
lentamente.
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