Dos fragmentos dispersos se fazem novos, que crescem, enrolados na água, dispersos ao vento, que os desgasta, arredondando novos pensamentos velhos, praias de areia nova, grutas de vazio escorrido, círculos quebrados e retomados, normais no antes, no depois, normais na distância que esbate as diferenças mais salientes, durante.
O que diz isto e a seguir aquilo, de sentido, de noções, que valham a noção simples de estar vivo? Aonde começam e acabam as sensações, as mais simples, de respirar, de digerir, de ter um coração que bate engolindo tudo?
O que digo, o que penso e o que faço afogam-se num só segundo, de o sentir, vivo.
Visitei a minha mãe e olhei dela, o que sou, o que somos, de momentos fechados, nesta teimosia de continuar. Persiste na religião, na salvação que por ela aguarda e se eu fosse uma folha quadriculada, o fundo seria o esbatido de uma cor, só dela, misturando e desaparecendo em cada cor que lhe sucedeu, encerrada, ou espalhada nas quadrículas, de presenças, de ausências, de permanentes, de agora, momentos encerrados que se renovam, acabando.
Duas senhoras a visitaram e eu corri como água, que correndo se limpa, da ferrugem dos canos, do estagnar das pausas de" um café", do pensar como sensação de estar vivo, na insónia e ao longo do dia, no perfeito e infinito, imperfeito e finito.
De quantas fés se faz a minha? Quantos textos lavrei, perfeitos, de os ter destruido, quantas conversas de nunca terem fim se fizeram bases e tijolos, deste edificio, inacabado?
As certezas todas derretem ao Sol. As verdades todas, o tempo as come. A fé de vida, de estar, é um passeio curto, único, passageiro.
De 1997 a minha noção de verdade.
3 Sem pausas nem arrependimentos.
Vejo a verdade como sinto da América
o Atlântico que nunca atravessei.
Não há montanhas que me ergam
ao nível do infinito
ao nível do universo
não há porto do qual eu possa olhar
o que só pressinto e apalpo.
Engano-me
porque de tudo só vejo pedaços esparsos
nos pedacinhos de tudo que em todos vivem
do corpo que em tudo existe só vejo a ilusão
dos pedaços desligados e sem forma
um a um enfaixados na verdade de todos
na mentira de todos condensados
e sempre vivos na verdade de tudo.
Não existe mentira na verdade deste sonho
tudo existe e se faz verdade na mentira toda
que em tudo existe e se faz a verdade toda.
Não tenho do Graal a busca que não posso
não tenho de Deus a verdade que não posso
mas sinto que em mim bate o que não consigo
que em mim existe a verdade que não posso
enquanto aguardo a escada que não existe
e a porta está fechada e nem a chuva me molha
no degrau que eu posso e a nada me leva.
Vejo a verdade como sinto da América
o Atlântico que nunca atravessei
Tenho das ideias a certeza de serem nada
sem os idiotas que as façam funcionar.
tenho do que penso o tempo que me acompanha
e é quando penso que o sinto mais meu.
ideias são o que não falta ao vento
arrastadas no tempo que as leva
de resto me amanho no que vivo e não sinto meu
e quando penso me iludo
me arrasto e me desgasto e nem penso.
Vejo a verdade como sinto da América
o Atlântico que nunca atravessei
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