Os ismos passam todos e ao gosto do que passa se escreve o que passou, depois muda, como mudam as cabeças e as sentenças e os níveis de sanidade mental, de cada um, de cada grupo, de cada crença, de cada Breyvic, de cada Hitler, de cada Cristo, de cada Buda, repercutidos no tempo como ecos prolongados, como guinchos sufocados. Palavras longas, filosofias imensas e nenhuma consegue a pausa de cada batimento, de cada pedaço, de cada falta, de a sentir só porque falta.
O Mundo todo e a falta dele, toda, em cada cabeça.
4
Kadafi foi assassinado hoje
e deus é grande
o Zé também faleceu hoje
assim o quis deus
e uma menina de dois anos
chinesa
foi atropelada, não sei quando
pela indiferença, de muitos
assim o quis, a vergonha
que por eles e por mim
sinto
de estar vivo
indiferente.
9
As mantas que cobrem o cadáver de Kadafi
parecem cobrir as palavras
as provocações narcisistas
de um demente morto
mas de certeza que não cobrem
a clemência que ele não deu
nem lhe deram.
A morte perdoa tudo
e das águas turvas de um ditador morto
se vai erguer outro
invocando liberdades e patriotismos
islamismo e outros sismos
que abanam e abalam este Mundo
tão pequeno de os permitir
enorme de os consentir.
Como quem deles ignora a presença
e o cheiro
de tão pequenos
na descarga constante de um tempo
cristalino
de ter sempre a solução de tudo
de ser sempre a solução de tudo.
O domínio do ser humano no mundo, a sua influência e a variabilidade de tudo o que o constitui (cabeça, tronco e membros), estão aqui muito bem explícitos. Obrigada por esta visão tão global do tempo que corre(u) :)
ResponderEliminarKadafi era um dos que pareciam eternos, sobrevivente da guerra fria e como tudo acabou no tempo dele, mal ou bem ele tudo fez para que fosse mal e parece que já foi há tanto tempo, tanto tempo.
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