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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

ACTOS NECESSÁRIOS Pensar o sentir


                                             4
                                            Sonhei ser o reflexo vazio    
                                            de um espelho que me continha
                                            e tudo me roçava e tudo a meu lado passava
                                            num desgaste lento de sensações vazias
                                            que o tempo comia que o tempo trazia
                                            enquanto o reflexo vazio se mantinha
                                            nos riscos que nele se cruzavam
                                            sem dele fazerem parte
                                            cada vez mais fraco, cada vez mais fraco
                                            mas sempre vazio.
  

    
                                            5    
                                            De vez em quando acordo
                                            e nem minha parece a voz que ouço
                                            e logo calo
                                            enquanto sonolento penso
                                            e logo me canso.

                                            De vez em quando penso
                                            em desejos que o tempo come
                                            antes que a posse lhes dê fim.
                                            De vez em quando penso
                                            no que é e logo deixa de o ser
                                            enquanto o traço se alonga
                                            de ponto a ponto
                                            ondulando inconsciente.

                                            De vez em quando penso
                                            no assobio que a velha já não ouve
                                            na criança esfarrapada que por mim passa
                                            e eu passo e ela passa e eu penso
                                            e nem sei o que penso mas penso.

                                            De vez em quando penso
                                            com saudades do que ainda não veio
                                            e o pensamento calo
                                            no gozo do momento que já veio
                                            e se  vai enquanto penso.




                                            6
                                            A quem não sabe pedir
                                            entrego o fastio que por mim sinto
                                            por mim que não sei pedir
                                            que espero o que mais quero
                                            à porta do que não quero
                                            e aceito o que vem    
                                            em escolhas que nem sinto
                                            e minhas faço. 





                                            7  
                                            Poder de mim banir
                                            este vazio de palavras sem sentido
                                            e sem palavras construir vivas verdades
                                            ganhar sentidos
                                            não ser o que sou de vazio.










quarta-feira, 14 de novembro de 2018

17 2013







TENDÊNCIAS





1
Somos como linhas que se tocam e se afastam.

Ontem, na Boa Nova,
um grupo de alunos parou,
eu tinha a máscara "não me chateiem" colocada
e mesmo assim,
de uma forma cativante,
não sei quantos me perguntaram
se eu era ,
o que tinha aparecido na televisão.

Varrendo folhas, relva e detritos,
numa dimensão de espaço e de tempo que não entendo,
olhei-os desfocados,
como se fossem um só,
depois acordei,
quando se destacou
um
do grupo
e me pediu para dizer um poema.
Sorri no fundo negro e frio que eles tinham iluminado
e tal como lhes poderia ter dito
que a Dobrada não se serve fria,
dei-lhes o meu blogue.

Somos linhas que se tocam e se afastam
e eles tocaram-me na pausa que me ofereceram







2
Tudo funciona no sentido do imprevisível,
unem-se linhas e pontos nas imagens que deveriam ser,
de cada segundo contado,
ou descontado,
a certeza e a incerteza,
das imagens serem sempre diferentes
das linhas e dos pontos que as deveriam criar iguais.

O que é sempre igual?
O tempo alheio de não ser pensado,
nunca
ou a pena que pesa sempre
de o tempo ser só para quem sente,
o trampolim que tudo ergue,
a barreira da lama, das ideias e dos vivos,
em cada segundo de haver vistas e mortos
que se afundam vivos, 
que se arrastam rasteiras,
de serem sempre de um voo,
a ideia dele,
a noção dele e nada mais.





3
Tendências de estar e de ser,
acumulam-se no estômago das ideias,
na cabeça que as digere,
divertindo o jogo de sentir e o de pensar

inconsequente,

como se tudo fosse a insónia de viajar constante,
no conciliar de um sono permanente,
de não o ter.





4
Palavras como razão de nunca a ter,
flutuam certas,
no oceano que a todas afunda,
certas de o serem no tempo delas,
na razão delas,
no acabar delas,
no renovar delas em cada cabeça vazia que nelas pousa
e nelas se enche de um vazio que a permite repleta
e o tempo passa no entender de tudo,
a noção de um nada permanente,
que se afunda de navegar junto à costa
e assim fica,
repleto de mortos e desleixo
como vaidade antiga
no lixo recente.






5
Tenho a cabeça cheia
das coisas mais simples,
das insignificâncias,
das necessidades como camadas
que se acumulam,
de folhas e valores,
quentes de respirar ainda,
num equilíbrio do balanço constante de estar vivo,
como nadar até cansar,
como viver até morrer.










domingo, 11 de novembro de 2018

16 2012






CRISTAL





1
Surgem de quase nada
empilhadas
caixas de cristal
transparentes de momentos, que guardam
eternos
estilhaçados no peso, de serem muitos
os momentos
tantos
que são só, e apenas, o que são
momentos
estilhaçados e acabados
no abrir das mãos e no fumar das ideias
que se acumulam
empilhadas
como caixas de cristal
estilhaçadas
no fumo que pesa de um ardor
de momentos e momentos
transparentes, encerrados
sentidos e acabados
momentos empilhados. 





2
Outubro e as folhas caídas
na esperança de haver só
um Inverno
que cai
depressivo como berros
que não ouço
como cores que se recusam do branco
e parecem lama
só lama que se cola aos momentos caídos
como folhas
caídas
de haver um fim
cristalino de o ser. 






3
A origem do que já está feito
não passa de um devaneio, entre o nada
e o nada.

Quando a obra surge
sente-se a qualidade na transparência
que brilha ausente dos defeitos
das causas e dos efeitos
como cumes sustentados no vazio
como estrelas que tudo tocam
mas ninguém agarra.

Estou a ouvir a Nona, como quem reza
e foi longo, o tempo, que passei
sem rezar com ela
tantas foram as orações
que me permitiram respirar
por ela e por mim
e tantas foram, as caixas transparentes
de encerrarem tudo
na transparência, de nada guardarem
tão importante é tudo
tão importante
na miudeza de nada se guardar.




4
Kadafi foi assassinado hoje
e deus é grande
o Zé também faleceu hoje
assim o quis deus
e uma menina de dois anos
chinesa
foi atropelada, não sei quando
pela indiferença, de muitos
assim o quis, a vergonha
que por eles e por mim
sinto
de estar vivo
indiferente.

sábado, 10 de novembro de 2018

13 2012









PONTOS DE VISTA 




1
Se um homem cresce muito
vê mais longe
enquanto pisa o que não vê
indiferente.
Se um homem cresce pouco
não vê tão longe
mas consegue ver o que pisa
indiferente.

Ambos o fazem
e ambos o sabem
e ambos têm direitos e opiniões
que negam
aos que pisam. 






2
Amanhece no carvalho que parecia negro
e agora brilha com as cores da luz
que não são as dele de certeza
tanto variam ao longo do dia
que se acaba
num entardecer de regresso
às funções básicas
ao desperdício constante
do lucro permanente de estar vivo.

As folhas caem e eu a todas piso
de não as sentir como a folha que sou
ganhando as cores que parece ter
nas cores que constante perde
de terem sido as cores de tudo
de todos
e sempre de ninguém
tantas são as sensações
que todos podem sentir
de mãos abertas
como folhas de Outono
caídas
mortas
no frenesim de se renovarem.






3
Constantes perpassam as ilusões de estar vivo
e de olhos fechados tudo tem a razão
de um cansaço que nada pergunta.
Constantes perpassam as desilusões de estar vivo
e de olhos abertos tudo ganha a razão
de um cansaço sem respostas.




4
O que penso parece um cordão.

É de certeza
um cordão que se alonga
na brisa do que é sereno
e tantas vezes se rompe no vendaval
que o desgasta.

Curto ou longo nem sempre há nós
que o agarrem à sequência
que por ele se desenrola
mas quando os há
parecem terços que pedem orações
desconhecidas
como preces aos tempos todos
aos tormentos  e às venturas
desenroladas nas mãos
num ritual permanente
numa devoção constante
ao ritual de permanecer vivo
numa aventura constante
das venturas todas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

12 2011


APARÊNCIAS
BANAIS
COINCIDÊNCIAS





1
Tudo é excessivamente neutro
antes de ser nosso.

Parece que estrago o que toco
quando tento que se faça meu
o que toco.

Numa aprendizagem impossível
do que se ganha perdendo
tudo parece emprestado
a um longo jogo de lerpa
neutro até
no escorregar da sorte
que nos permite lerpar.






2
Num desequilíbrio constante
se consegue o equilíbrio de adaptar
constante
as noções que faltam às noções que há.

Agarro sem pressa o que me parece torto
e a meu modo
na perspectiva do momento
corrijo e pouso.
Segundos depois, muitos ou poucos
de novo agarro e de novo está torto
o pensamento, a ideia, o momento todo
que de novo agarro e depois pouso.

Repetem-se as tentativas, esticam-se as palavras
na busca de algo que se possa afirmar
como algo de perfeito
depois de tantas vezes ser tentado.

Perfeito e esquecido no partir de novo
nas procuras que a si mesmas se rodeiam
num circulo que se estreita
e se fecha sempre imperfeito.





3
Formam-se imagens no vazio do espelho
só de nele olhar o longo vazio
deste longo tempo que me desaprendeu.

Perdi o gosto a tudo para o tentar de novo
e assim ocupar o tempo desta paisagem
que a espaços se quebra como noites longas
que a espaços se prolongam
num gozo aparente
de não me dar gozo nenhum.

As mais simples contas parecem ter resultados diferentes
o respirar não é o mesmo
e quando o parece, parece aturdido de o ser.

Esfrego as chagas que teimo.

Que não quero curar
enquanto devagarinho se vão curando
só de se manter vivo o invólucro das tolices a esmo
dos sonhos que se guardam
no constante perder de todos.

A mansidão da água que afoga os pesadelos
indiferente às confusões, devaneios
anseios que nela se afogam
num sonho de paz
num sonho vazio. 




4
Ponderar sem pressa
analisar na certeza dos dias longos
na certeza de ainda haver dias
que permitem paragens e a pressa
de tudo ter o seu tempo
o seu
para pensar e repensar
e mesmo assim poder falhar
consciente de o ter feito
como
 quem acerta em cheio
no falhanço
e sem choro nem queixas
o aceita.






















terça-feira, 6 de novembro de 2018

11 2011




PAPEL BRANCO




1
OLHO           
longamente o vazio de uma folha
em branco
e lentamente nela sonho os pesadelos
e os sonhos
possíveis que eu nem conheço.

A todos eu ponho
na brancura do papel
que não sujo, incapaz de o manchar
da brancura suja que por mim pensa
acumulando borrões
luzes e escuridões
QUE AOS SAPATOS
de um caminho de esquinas escusadas
e encontrões colados
se grudam por nadas e por tudo. 






2
O silencio é feito
da ausência de som
funciona num vazio periclitante
de vontades amordaçadas
nos corações que ainda assim batem
o ruído intenso da vida
que se recusa
permanente
ao silencio
de uma folha em branco
aos acordes que nada acordam
inexistentes
na brancura de acabarem
na brancura que não há
sem discórdia.




3
O bolor do tempo
passa pelas casas
pelas gentes
e de um inicio esquecido
sobejam sempre as marcas
dedadas
de crianças e não só
que as camadas, camadas de tinta
nunca tapam, de estarem lá
na recusa
no aceitar
na firmeza que enfraquece
na grandeza que de tão pouco cresce
e uma nova camada de novo tapa
mas só cobre
não tapa
e cedo se cobre de novo
de borrões preciosos
de terem tido
a vida que os fez.

As paredes desfazem-se
nas vidas que nelas se consomem
e há dias de tudo ter a importância
de ser importante
e há outros
que nada parece importar
como tijolos colocados
para que outros neles assentem
dividindo a importância da parede
pelas unidades cada vez menores
que a fazem
e nada valem fora dela
e tão pouco
parecem valer nela.

Será que são negros os pesadelos
ou esta brancura tão intensa
e vazia de a preencher
com a vontade
que nela se esvazia
não será somente
a brancura luminosa
que nos faz as sombras
e os pesadelos
de sermos
nela marcados e acabados
como sombras da brancura viva
que por instantes fomos
permitidos.




4
Tentar o retorno
do que não retorna
não conseguir adaptar
o espírito e o corpo
ao que muda
sem que mude, o que dentro
nunca muda
de mudar sempre
lento, tão lento
de tudo ter o tempo de se acabar
mudando sempre
lentamente.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

10 2011



           
LUIS




1
A fé que salva pessoas
mas consegue esquecer
outras
poderá ter muitos nomes
ou atributos
mas no fim
é só sorte momentânea
acaso
ou dinheiro que permitiu adiar
o fim,
que é o fim dos milagres
o esgotar do tempo,
o acabar certo
de um viver incerto
mas com fim marcado.

Queria ter a sabedoria
de dissertar monocordicamente
os ditos
e os contos todos
da sabedoria popular
democráticos e sempre certos
como boatos que se fazem
a razão
de a terem,
mesmo que a não tenham
porque no fim
a razão
se faz
do que sobrou de razões
espalhadas a esmo
na prece dos conventos por erguer
na pressa de tudo serem momentos
de prece que passam sempre.





2
Tenho um enorme buraco fundo
de ser,
ser,
ser e não saber
o que me bate fundo
no vazio de ser
o que acontece
o que permanece
o que me aguenta,
de me aguentar.

O tempo não parou
na hora de o ter feito
e agora me arrasta entre tudo e nada
sem jeito
e sem ele. 





3
Já passaram dez meses
tão pouco e tanto 
se me esquecer
do que por esse Mundo
se passa
de tão pouco
e tanto
se o que constante penso
e passo
se enredar no novelo
que sinto
fazendo-se visão única
e constante.

Permanente visão.

Enredada de tanto
e tão pouco
e tanto.




4
Perspectiva
a minha, sempre a minha
numa visão que se fecha
e se alheia
do que vai caindo
e não interessa.

Parcial nas distancias
que se fazem distantes
ou não se afastam
na cisma
de esmiuçar a compreensão
que falhou
ou nunca houve
o entendimento que existiu
isolado
por ser diferente.

Tantas pedras
que para mim são paus
e nem me custa aceita-las
o que custa é aceitar sempre
dos paus
o sem remédio das doenças todas
das pedras
do espírito
das cabeças e das sentenças
que dos mesmos princípios
tão diferentes
erguem edifícios
em tudo semelhantes
a tudo
e tão diferentes
no percurso
percorrido
para que no fim
tudo seja igual
às pedras que são paus
e aos paus que são pedras.



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

8 2011




PRECURSOS DOS PERCURSOS








1
O fluir da água límpida e fresca
marca num ritmo próprio
o tempo
nos detritos que arrasta
ou transporta
diferentes.

São dela
na corrente que os arrasta
ou transporta
diferentes
no tempo
que de todos fica
o tempo de todos.

O fluir da água
límpida ou turva
marca no que limpa
ou suja
o tempo que passa
no que arrasta
e fresco ou quente
por todos passa. 





2
Foi como ter nascido colado a um edifício
e durante muito tempo
o Mundo foi a visão daquela pedra
que arranhava, lavrada num pico grosso
velha de muitas intempéries
e de tantas cores brilhantes
formadas rente aos olhos
como visão única.

O tempo e a consciência
foram descolando as visões
e devagar, muito devagar
permitiram a distância
e as pedras foram-se multiplicando
.
De inicio ainda as sentia distintas
mas pouco depois
já só pareciam
pedras iguais.

A visão da primeira parede foi maravilhosa
e criou a urgente necessidade das outras
que longamente foram apreciadas
na lentidão de um longo trajecto
na distância segura das visões
que pareciam certas
e rodeavam o centro
que parecia certo mas distante
na distância certa.

Depois veio o cansaço
e a vontade de pertencer.

Tentei encurtar a distância que se alongava
e encontrei portas,
muitas portas nas paredes todas
e das que não tinham a minha medida
às que estavam fora do tempo de as ter tido
nenhuma me servia e eu continuei andando
naquele vazio de andar em circulo
num desgaste de pedras interiores
incapaz até de encontrar a primeira visão
perdida
no sucessivo acumular
de pedras iguais.




3
Cortei hoje do acer negundo
o galho em que o meu filho
se pendurou
e mais dois para equilibrar
a contenda exterior
porque da interior já os passos dados
se fizeram tão pesados,
tão repisados
que nada mos pode cortar.

Eu tenho dois filhos
é o presente que ainda me resta
um é novo e saudável
o outro novo é e está em coma.





4
Comi lá duas vezes
serviam mal e cobravam caro
depois fechou.
Comi lá muitas vezes
serviam bem e cobravam pouco
depois fechou.

Foi assim que.

Assim eu aceitei a multa de ter cão
no receio da multa
por não ter cão.


















segunda-feira, 22 de outubro de 2018

7 2010


ELEMENTOS  DO  ESPÍRITO





1
Depois do frio,
vem o sol que não escalda
mas amorna do verde,
o frio e o agreste da noite.

As cores estão mais nítidas
e têm agora as formas
de serem reconhecíveis
pela cabeça que nelas repousa.
São como elementos
de um espírito benevolente
que as deixa inundar de uma luz
que parece a de ontem
mas com mais paz luminosa.

A luz de hoje não é de ontem
o que sinto hoje
não é o que senti ontem
o desequilíbrio de ontem
não é a falta de equilíbrio de hoje.
O descanso de hoje tem a luz
que ontem não tinha. 





1/1
Pequenas parcelas
quase imperceptíveis
permitem a osmose
do exterior de coisas
com as coisas interiores,
quietas e sossegadas
do cansaço,
de nem ele poder ser perfeito.
Por isso tudo pode ser feito,
sem pressa
na união dos elementos
que mais pesam
aos que permanecem
mais leves
num equilíbrio
de opostos.





1/2
O repouso do espírito
pouco habituado ao que é belo
de ser simples,
ausente do conflito e das questões
é sempre tão curto,
sempre pouco.

0 que é simples acaba sem aviso
na simplicidade
de ter sido simples
de ter sido e acabado.






1/3
Perdem-se tantas vezes
os verdes tão diferentes
que alcanço
e gostaria de conservar
afastados das perguntas que faço
como fuga
a um fastio que só eu sou
cansado das perguntas
e alheado das respostas
que nem espero.




2
Dar e arrepender de ter dado
de nada serve
e só inibe o dar ainda mais
na  procura do que respira
como respiramos.

O que chama e incentiva
o que de nós é melhor
numa dádiva nossa,
ao que nos aguarda
de nosso.




Sem pressa aguarda o nosso aguardar
sem pressa e nosso.




Aguardo o elemento catalisador
que me erga
da modorra de uma busca
expectante
para o proveito
de me sentir proveitoso.

Fora de mim, longe de mim
numa dádiva
que ainda não me encontrou
mas persiste certa
e no tempo que passa
com firmeza se agarra.

Eu sinto
fora de mim, em cada dádiva
muito longe, no que aguarda
sem arrependimento, o que nem entendo.












sábado, 20 de outubro de 2018

6 2010



MOMENTOS 







1
Há momentos de aparecer
ou esquecer.

A vida é feita do que surge.
Há momentos dolorosos
e outros que o não são
mas agora que nada vejo
além da impotência toda do universo
mais a minha bem maior
agora que a dor é constante
e eu nunca senti nada tão vasto tão incontornável
agora tudo se fez ridículo
tudo se resume a pouco
nada tem o sabor que eu perdi.

Aturdido esqueço o que não aparece
o que me faz falta já me sobra
na vastidão deste vazio.

A minha riqueza está nos meus filhos
de que me servem as rugas, o que pensei e o que emburrei
sem eles.
O meu corpo, o meu sentido, a minha vida
é deles
são o que eu não sou de serem mais do que eu
as minhas esperanças, o meu prolongar, a minha perfeição
de serem eles.

Esqueço o vazio agarrando e vendo o que surge
esqueço o que não vejo, o que não surge.

O que perdi é agora o que sempre quis
tudo parece esquecido, tudo perdeu importância.
O que penso é feito de segundos somados um a um
num rasto receoso de perder o que ainda há
agarrado ao que escorrega, ao que desliza, ao precário
que agora parece nada sustentar
e contudo agarra numa teia fina de fragilidades
o que ainda há, o que ainda é 
o que ainda é tudo
e eu guardo, momento a momento
no repouso de quem aparece e eu não esqueço.







2
Momentos de serem longos
ou curtos
momentos que passam
como passa tudo
momentos de dor
momentos de alegria
momentos antes, momentos depois
numa sucessão que por momentos quase pára
mas ainda não o fez
no ser que já era
no é que já foi
no que persiste e ainda procura
a côdea que envolva
os momentos que se acumulam quentes
e depois param e arrefecem
acabam e no que se renovam
nunca mais são os momentos
nos momentos que depois
sucedem.







3
Rio num silêncio respeitoso
da simplicidade de tudo.
A explicação que a nada leva
torna mais importante a noção da maçã
que o sabor dela
derrete as sensações, deixa pensamentos
e ilusões
que se espalham como vírus
pelos momentos todos.

A frescura da relva
já não aquece os pés descalços
e o ar puro da manhã
já parece usado
por camiões de sentimentos perdidos
por momentos respirados e acabados
no acabar de ainda aqui estar
persistente e iludido.





4
Vomito o que penso sentir
e por mim pensa e sente
qualquer um sempre
mas muito, muito mais.

Na hora dos abraços
que já não há
da compreensão
que nunca houve
tudo se ergue tão estreito
que o que vejo
é tão vasto e sem mim
que eu me perco
e tudo é perfeito
fora dos momentos
que nem meus
parecem.















quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Correndo

O Poema  que anseio
é sempre
o que escrevo  e  logo apago
ciente do espaço
do tempo
de sentir
o retardado
desta compreensão  tardia do...do...
passo atrasado
no tempo
no espaço
sentido
desta areia escorrendo lenta do...do...
momento
eterno
como gota
do oceano
correndo

terça-feira, 16 de outubro de 2018








NEGRO   LUMINOSO




I want with the difficult of the moment
so recent and with so much pain
I want to tell the story of the most beautiful head
outside the smile of the champions
the sun to everybody
inside the illness of no reason
the darkness of the silly nightmares.
All the words of all the world and I don’t have one
a single one to explain so much pain.

We have in our brains, the universe
we have the dreams and all the darkness
and sometimes we have no mind to make the choice
between the dark raven and life itself
 
All the possibilities in my head
and all are made of, if maybe
and always never more
with no raven, no more talking
no more, never more
maybe my dearest child, but you know
I have your brother and your mother to love
and all the people, since the first day
they are always saying to me:
“You need to be brave, you need to be brave”.

I’m brave, in my weakness, I’m brave
I need to be alive to have my heart full of memories
and to cry the most beautiful Portuguese word
saudades.




    
1
CHINA
Lentos imagino 
que se movam os camiões  
que os levam
a uns fardados  
a outros algemados
na viagem que para uns é longa
e para outros se faz tão curta
no fim com uma bala na nuca. 








2
Repetir mil vezes os mais simples gestos 
para nunca os sentir repetidos
no sabor que lhes dá alento
no sopro que os alimenta 
e os faz únicos                                                                                                                segundo a segundo pulsando únicos.

Únicos
e depois há sempre um depois
algumas vezes um antes
compartimentos que se fazem estanques
limites ao que houve
ao que há
numa aprendizagem do infinito
que parece ser nosso
mas cedo se acaba
e nem dos trapos resta o suor
do uso. 



3
Esquecer os maus momentos                                                                                      no cansaço que nem assim os esquece.
Sentir dos segundos os que se vão
e os que ficam
enquanto as certezas se firmam
como lapas
à certeza única que com elas se vai.

Perco a importância dos maus momentos
no cansaço que nem assim mos acaba.

De tudo se faz um resumo
que se vai esquecendo sempre, sempre.
Dos pedaços que agora parecem pequenos
e nunca o foram, nunca o foram
de todos se faz o resumo de uma vida
e todos foram vividos
e o resumo é sempre o mesmo
curta ou longa foi
e deixou de o ser.  



4
Meu anjo de asas queimadas
querias voar
mas eu nunca tive
o que te faltou de asas e sossego
que eu nunca tive.

O que te faltou
diz-me baixinho para que todos o ouçam
no teu silêncio.

O sossego que agora tens
envergonhado anseio roubar-to
na culpa de não te ter dado
na culpa de te querer dar
o egoísmo de me fazeres falta
a mim a mim
sim a mim.

O que te faltou
diz-me baixinho para que todos o ouçam
no teu silêncio.

A falta de ti que me magoa
mais o pesadelo que me deste
e eu nunca poderei esquecer
mesmo que do teu descanso
te consiga roubar
mesmo que contigo me possa aninhar
para que me digas baixinho
o que te faltou no teu silencio
que agora estoura
na minha cabeça vazia de estar viva
e nem o sabe.

Diz-me baixinho, o que te faltou
para que eu possa do que me falta
sentir o que te faltou
e baixinho, baixinho quero guardar.