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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

14 DEPENDÊNCIAS








4
O respirar suave de estar vivo
o ritmo dele que parece ser o nosso
em cada movimento, em cada afago
em cada caricia lenta que lhe faço
de agora lhas fazer como se nunca
as tivesse feito. 




5
Acumular as pequenas
e as grandes coisas
as importâncias
e a falta delas
e sentir o depender que se acumula
algumas vezes
como poeira dourada
outras como pó
simplesmente
que também cobre, também pinta
no que assenta de tempo que passou
sentido
ou por sentir
nas dependências que se unem
e vão roubando o espaço
do que as une
sentindo ou não sentindo
mas unindo.

Prender o que se aprende
acumular e ficar dependente
de um sorriso que não volta mais.




6
A cada porta que parece abrir

uma nova dependência
como um vicio novo
colado à pele dos pensamentos todos
como se ainda fizesse falta
mais um
para prender de uma forma que se repete
mas é nova
nos anseios velhos
o tempo todo
o tempo que se prende em cada frincha
de vida
e de morte
que só fecha para quem morre.

A cada porta que se abre.

Em cada porta um novo abismo
de escadas que sobem descendo sempre
no patamar de um tempo
dependente
patamar a patamar
como se a soma deles
libertasse deles
a prisão das escadas
que sobem sempre descendo
sempre

ou talvez se mantenham quietas

e só eu me mova no sentido de as perder
descendo delas em cada instante
a dependência que nas sensações
se enrola
como um vicio que dura
o tempo de estar vivo.

A cada porta que se abre
uma linha nova assinala novamente
o novo antes
e o novo depois
para que de uma linha se faça o que sai
e o que entra
e o que não regressa.




7
De cada miudeza esmiuçar
o que a fez
o que dela se uniu
transpondo tempo e vontades
dando-lhe a grandeza
de permanecer.

De cada dedo sentir a mão toda
de cada olhar as visões guardadas
para que as trevas se possam romper
na altura certa das certezas pequeninas
que juntas permitem o respirar
de valer a pena. 



8
Hoje senti de novo
a beleza das contradições
o valor de não estar certo
o incompleto que em tudo reside
de não haver mão que agarre
nem cabeça que abrace
o completo que em tudo reside.

Hoje parei em cada pássaro
o voo que tardava
e depois voaram
de um canto para outro
redondos e silenciosos
de os ouvir
como quem ouve silêncio
e dele retira
os sons todos
e os silêncios todos
e nada mais importa.

Hoje senti que finjo a vida que tenho
e de tanto a fingir me agarro com mais força
ao que traz, ao que traz e eu agarro
arrastado por uma corrente
que desagua em cada esquina
de ainda não ser a minha
e é tão fresca
esta água que me enche
em cada instante
de não o sentir
para só a sentir
a ela
fresca e eterna
em cada momento.















sábado, 12 de janeiro de 2019

Cuidar e manter vivo

O meu Luís
faz hoje 32 anos
ainda ontem nasceu
e eu continha o mundo
nos braços que o erguiam

não falta muito
para que faça 10 anos
de o ter tido perdido nos braços
de o ter agora neste jeito diferente
de ainda ser o meu menino mais velho

o tempo é feito
de momentos que se pintam
momento a momento na cor de cada um
numa corrente que se alonga entre dois pontos
mergulhando neste oceano de sentir o agridoce da vida

de que areia miúda se faz este moer do tempo
este silêncio de acumular sons brancos
nesta consciência mínima  viva
maravilhosa de ainda estar
vivo

domingo, 16 de dezembro de 2018

...gostava...gostava...


Gostava..........
deste percurso
sentir a força de cada elo
desta corrente que não sei se enrola
ou só desenrola
o atrito das  sensações
o desgaste das  emoções
em cada travar de areia fina


gostava de escrever
como quem marca segundos
no automatismo de um coração
feito caneta
escorrendo tinta
na brancura de um papel desenrolado e sempre branco
do que ainda não passou
nas marcas das cores todas do que já foi
de caminho palpitante
nos segundos todos

caminham as linhas
pelo comboio que enferruja
no apeadeiro
do sossego
dos destinos
todos

Paisagem
como janela
de olhar e sentir dela
o passar como conta
de somar sempre

gotas
 que se fazem o universo
de as sentir a todas

negro de o sentir todo
em tudo
branco de o sentir em tudo
como silêncio dos sons todos
colorindo a  Paisagem
sem janela
que desfila nas linhas
de as ter dentro
desta ferrugem de pensar
e sentir
deste navegar sem fim
os pedaços todos
quietos

2 O encontro das diferenças


5
No sonho sou sempre criança
e há doces
e o armário é alto
e eles estão lá
e eu não lhes chego.  





6
As musas já findaram
o que fizeram já não fazem
em doentias palavras de fastios individuais enforcadas
em estrume de tantas mortes inúteis sufocadas
acabaram.

Delas resta no espírito de quem não as tem
a morta recordação
que sem desejo de as ter as deseja      
enquanto visões impossíveis cegam              
quem as persegue e nada consegue. 




7
Sinto sem sobressaltos o que sinto.

Dolentes me sossegam sensações     
que me embalam como se fossem minhas       
e me aceitam.

Sinto sem sobressaltos o que sinto
fugindo dos cumes que não me erguem
ou das fossas que não me enterram.

Sinto sem sobressaltos o que sinto
enquanto metamorfoses que nunca sonhei
me fazem igual a tudo mais igual que tudo.

Sinto sem sobressaltos o que sinto.




8
Afogo-me em falhanços 
que cioso resguardo 
e sereno me mantenho                                                     enquanto procuro água 
no deserto em que vivo 
e sem que me afogue sobrevivo 
sem sede 
ao morto que arrasto comigo.



















domingo, 9 de dezembro de 2018

Para P. Sabag

Pensar é colorir
dar cor aos momentos
atravessar cada gota
como cada segundo que passa

daltonismo de todos
neste espelho dos reflexos vertiginosos
nesta realidade que se reproduz
infinita

pensar é um silêncio
que percorre vazios preenchidos
paisagens quietas
de as pensar  movendo-se

ecos de os sentir a todos
ressoando sons adormecidos
de os ter quietos e reais
eternos

pensar é ocupar
o vazio silencioso do tempo
com este frenesim de viver
cada grão fino  que se vai

praia e oceano das cores todas
molhadas e secas e sempre incertas
neste vento  tempo  que as faz certas
perfeitas