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sábado, 10 de novembro de 2018

13 2012









PONTOS DE VISTA 




1
Se um homem cresce muito
vê mais longe
enquanto pisa o que não vê
indiferente.
Se um homem cresce pouco
não vê tão longe
mas consegue ver o que pisa
indiferente.

Ambos o fazem
e ambos o sabem
e ambos têm direitos e opiniões
que negam
aos que pisam. 






2
Amanhece no carvalho que parecia negro
e agora brilha com as cores da luz
que não são as dele de certeza
tanto variam ao longo do dia
que se acaba
num entardecer de regresso
às funções básicas
ao desperdício constante
do lucro permanente de estar vivo.

As folhas caem e eu a todas piso
de não as sentir como a folha que sou
ganhando as cores que parece ter
nas cores que constante perde
de terem sido as cores de tudo
de todos
e sempre de ninguém
tantas são as sensações
que todos podem sentir
de mãos abertas
como folhas de Outono
caídas
mortas
no frenesim de se renovarem.






3
Constantes perpassam as ilusões de estar vivo
e de olhos fechados tudo tem a razão
de um cansaço que nada pergunta.
Constantes perpassam as desilusões de estar vivo
e de olhos abertos tudo ganha a razão
de um cansaço sem respostas.




4
O que penso parece um cordão.

É de certeza
um cordão que se alonga
na brisa do que é sereno
e tantas vezes se rompe no vendaval
que o desgasta.

Curto ou longo nem sempre há nós
que o agarrem à sequência
que por ele se desenrola
mas quando os há
parecem terços que pedem orações
desconhecidas
como preces aos tempos todos
aos tormentos  e às venturas
desenroladas nas mãos
num ritual permanente
numa devoção constante
ao ritual de permanecer vivo
numa aventura constante
das venturas todas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

12 2011


APARÊNCIAS
BANAIS
COINCIDÊNCIAS





1
Tudo é excessivamente neutro
antes de ser nosso.

Parece que estrago o que toco
quando tento que se faça meu
o que toco.

Numa aprendizagem impossível
do que se ganha perdendo
tudo parece emprestado
a um longo jogo de lerpa
neutro até
no escorregar da sorte
que nos permite lerpar.






2
Num desequilíbrio constante
se consegue o equilíbrio de adaptar
constante
as noções que faltam às noções que há.

Agarro sem pressa o que me parece torto
e a meu modo
na perspectiva do momento
corrijo e pouso.
Segundos depois, muitos ou poucos
de novo agarro e de novo está torto
o pensamento, a ideia, o momento todo
que de novo agarro e depois pouso.

Repetem-se as tentativas, esticam-se as palavras
na busca de algo que se possa afirmar
como algo de perfeito
depois de tantas vezes ser tentado.

Perfeito e esquecido no partir de novo
nas procuras que a si mesmas se rodeiam
num circulo que se estreita
e se fecha sempre imperfeito.





3
Formam-se imagens no vazio do espelho
só de nele olhar o longo vazio
deste longo tempo que me desaprendeu.

Perdi o gosto a tudo para o tentar de novo
e assim ocupar o tempo desta paisagem
que a espaços se quebra como noites longas
que a espaços se prolongam
num gozo aparente
de não me dar gozo nenhum.

As mais simples contas parecem ter resultados diferentes
o respirar não é o mesmo
e quando o parece, parece aturdido de o ser.

Esfrego as chagas que teimo.

Que não quero curar
enquanto devagarinho se vão curando
só de se manter vivo o invólucro das tolices a esmo
dos sonhos que se guardam
no constante perder de todos.

A mansidão da água que afoga os pesadelos
indiferente às confusões, devaneios
anseios que nela se afogam
num sonho de paz
num sonho vazio. 




4
Ponderar sem pressa
analisar na certeza dos dias longos
na certeza de ainda haver dias
que permitem paragens e a pressa
de tudo ter o seu tempo
o seu
para pensar e repensar
e mesmo assim poder falhar
consciente de o ter feito
como
 quem acerta em cheio
no falhanço
e sem choro nem queixas
o aceita.






















terça-feira, 6 de novembro de 2018

11 2011




PAPEL BRANCO




1
OLHO           
longamente o vazio de uma folha
em branco
e lentamente nela sonho os pesadelos
e os sonhos
possíveis que eu nem conheço.

A todos eu ponho
na brancura do papel
que não sujo, incapaz de o manchar
da brancura suja que por mim pensa
acumulando borrões
luzes e escuridões
QUE AOS SAPATOS
de um caminho de esquinas escusadas
e encontrões colados
se grudam por nadas e por tudo. 






2
O silencio é feito
da ausência de som
funciona num vazio periclitante
de vontades amordaçadas
nos corações que ainda assim batem
o ruído intenso da vida
que se recusa
permanente
ao silencio
de uma folha em branco
aos acordes que nada acordam
inexistentes
na brancura de acabarem
na brancura que não há
sem discórdia.




3
O bolor do tempo
passa pelas casas
pelas gentes
e de um inicio esquecido
sobejam sempre as marcas
dedadas
de crianças e não só
que as camadas, camadas de tinta
nunca tapam, de estarem lá
na recusa
no aceitar
na firmeza que enfraquece
na grandeza que de tão pouco cresce
e uma nova camada de novo tapa
mas só cobre
não tapa
e cedo se cobre de novo
de borrões preciosos
de terem tido
a vida que os fez.

As paredes desfazem-se
nas vidas que nelas se consomem
e há dias de tudo ter a importância
de ser importante
e há outros
que nada parece importar
como tijolos colocados
para que outros neles assentem
dividindo a importância da parede
pelas unidades cada vez menores
que a fazem
e nada valem fora dela
e tão pouco
parecem valer nela.

Será que são negros os pesadelos
ou esta brancura tão intensa
e vazia de a preencher
com a vontade
que nela se esvazia
não será somente
a brancura luminosa
que nos faz as sombras
e os pesadelos
de sermos
nela marcados e acabados
como sombras da brancura viva
que por instantes fomos
permitidos.




4
Tentar o retorno
do que não retorna
não conseguir adaptar
o espírito e o corpo
ao que muda
sem que mude, o que dentro
nunca muda
de mudar sempre
lento, tão lento
de tudo ter o tempo de se acabar
mudando sempre
lentamente.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

10 2011



           
LUIS




1
A fé que salva pessoas
mas consegue esquecer
outras
poderá ter muitos nomes
ou atributos
mas no fim
é só sorte momentânea
acaso
ou dinheiro que permitiu adiar
o fim,
que é o fim dos milagres
o esgotar do tempo,
o acabar certo
de um viver incerto
mas com fim marcado.

Queria ter a sabedoria
de dissertar monocordicamente
os ditos
e os contos todos
da sabedoria popular
democráticos e sempre certos
como boatos que se fazem
a razão
de a terem,
mesmo que a não tenham
porque no fim
a razão
se faz
do que sobrou de razões
espalhadas a esmo
na prece dos conventos por erguer
na pressa de tudo serem momentos
de prece que passam sempre.





2
Tenho um enorme buraco fundo
de ser,
ser,
ser e não saber
o que me bate fundo
no vazio de ser
o que acontece
o que permanece
o que me aguenta,
de me aguentar.

O tempo não parou
na hora de o ter feito
e agora me arrasta entre tudo e nada
sem jeito
e sem ele. 





3
Já passaram dez meses
tão pouco e tanto 
se me esquecer
do que por esse Mundo
se passa
de tão pouco
e tanto
se o que constante penso
e passo
se enredar no novelo
que sinto
fazendo-se visão única
e constante.

Permanente visão.

Enredada de tanto
e tão pouco
e tanto.




4
Perspectiva
a minha, sempre a minha
numa visão que se fecha
e se alheia
do que vai caindo
e não interessa.

Parcial nas distancias
que se fazem distantes
ou não se afastam
na cisma
de esmiuçar a compreensão
que falhou
ou nunca houve
o entendimento que existiu
isolado
por ser diferente.

Tantas pedras
que para mim são paus
e nem me custa aceita-las
o que custa é aceitar sempre
dos paus
o sem remédio das doenças todas
das pedras
do espírito
das cabeças e das sentenças
que dos mesmos princípios
tão diferentes
erguem edifícios
em tudo semelhantes
a tudo
e tão diferentes
no percurso
percorrido
para que no fim
tudo seja igual
às pedras que são paus
e aos paus que são pedras.



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

8 2011




PRECURSOS DOS PERCURSOS








1
O fluir da água límpida e fresca
marca num ritmo próprio
o tempo
nos detritos que arrasta
ou transporta
diferentes.

São dela
na corrente que os arrasta
ou transporta
diferentes
no tempo
que de todos fica
o tempo de todos.

O fluir da água
límpida ou turva
marca no que limpa
ou suja
o tempo que passa
no que arrasta
e fresco ou quente
por todos passa. 





2
Foi como ter nascido colado a um edifício
e durante muito tempo
o Mundo foi a visão daquela pedra
que arranhava, lavrada num pico grosso
velha de muitas intempéries
e de tantas cores brilhantes
formadas rente aos olhos
como visão única.

O tempo e a consciência
foram descolando as visões
e devagar, muito devagar
permitiram a distância
e as pedras foram-se multiplicando
.
De inicio ainda as sentia distintas
mas pouco depois
já só pareciam
pedras iguais.

A visão da primeira parede foi maravilhosa
e criou a urgente necessidade das outras
que longamente foram apreciadas
na lentidão de um longo trajecto
na distância segura das visões
que pareciam certas
e rodeavam o centro
que parecia certo mas distante
na distância certa.

Depois veio o cansaço
e a vontade de pertencer.

Tentei encurtar a distância que se alongava
e encontrei portas,
muitas portas nas paredes todas
e das que não tinham a minha medida
às que estavam fora do tempo de as ter tido
nenhuma me servia e eu continuei andando
naquele vazio de andar em circulo
num desgaste de pedras interiores
incapaz até de encontrar a primeira visão
perdida
no sucessivo acumular
de pedras iguais.




3
Cortei hoje do acer negundo
o galho em que o meu filho
se pendurou
e mais dois para equilibrar
a contenda exterior
porque da interior já os passos dados
se fizeram tão pesados,
tão repisados
que nada mos pode cortar.

Eu tenho dois filhos
é o presente que ainda me resta
um é novo e saudável
o outro novo é e está em coma.





4
Comi lá duas vezes
serviam mal e cobravam caro
depois fechou.
Comi lá muitas vezes
serviam bem e cobravam pouco
depois fechou.

Foi assim que.

Assim eu aceitei a multa de ter cão
no receio da multa
por não ter cão.


















segunda-feira, 22 de outubro de 2018

7 2010


ELEMENTOS  DO  ESPÍRITO





1
Depois do frio,
vem o sol que não escalda
mas amorna do verde,
o frio e o agreste da noite.

As cores estão mais nítidas
e têm agora as formas
de serem reconhecíveis
pela cabeça que nelas repousa.
São como elementos
de um espírito benevolente
que as deixa inundar de uma luz
que parece a de ontem
mas com mais paz luminosa.

A luz de hoje não é de ontem
o que sinto hoje
não é o que senti ontem
o desequilíbrio de ontem
não é a falta de equilíbrio de hoje.
O descanso de hoje tem a luz
que ontem não tinha. 





1/1
Pequenas parcelas
quase imperceptíveis
permitem a osmose
do exterior de coisas
com as coisas interiores,
quietas e sossegadas
do cansaço,
de nem ele poder ser perfeito.
Por isso tudo pode ser feito,
sem pressa
na união dos elementos
que mais pesam
aos que permanecem
mais leves
num equilíbrio
de opostos.





1/2
O repouso do espírito
pouco habituado ao que é belo
de ser simples,
ausente do conflito e das questões
é sempre tão curto,
sempre pouco.

0 que é simples acaba sem aviso
na simplicidade
de ter sido simples
de ter sido e acabado.






1/3
Perdem-se tantas vezes
os verdes tão diferentes
que alcanço
e gostaria de conservar
afastados das perguntas que faço
como fuga
a um fastio que só eu sou
cansado das perguntas
e alheado das respostas
que nem espero.




2
Dar e arrepender de ter dado
de nada serve
e só inibe o dar ainda mais
na  procura do que respira
como respiramos.

O que chama e incentiva
o que de nós é melhor
numa dádiva nossa,
ao que nos aguarda
de nosso.




Sem pressa aguarda o nosso aguardar
sem pressa e nosso.




Aguardo o elemento catalisador
que me erga
da modorra de uma busca
expectante
para o proveito
de me sentir proveitoso.

Fora de mim, longe de mim
numa dádiva
que ainda não me encontrou
mas persiste certa
e no tempo que passa
com firmeza se agarra.

Eu sinto
fora de mim, em cada dádiva
muito longe, no que aguarda
sem arrependimento, o que nem entendo.












sábado, 20 de outubro de 2018

6 2010



MOMENTOS 







1
Há momentos de aparecer
ou esquecer.

A vida é feita do que surge.
Há momentos dolorosos
e outros que o não são
mas agora que nada vejo
além da impotência toda do universo
mais a minha bem maior
agora que a dor é constante
e eu nunca senti nada tão vasto tão incontornável
agora tudo se fez ridículo
tudo se resume a pouco
nada tem o sabor que eu perdi.

Aturdido esqueço o que não aparece
o que me faz falta já me sobra
na vastidão deste vazio.

A minha riqueza está nos meus filhos
de que me servem as rugas, o que pensei e o que emburrei
sem eles.
O meu corpo, o meu sentido, a minha vida
é deles
são o que eu não sou de serem mais do que eu
as minhas esperanças, o meu prolongar, a minha perfeição
de serem eles.

Esqueço o vazio agarrando e vendo o que surge
esqueço o que não vejo, o que não surge.

O que perdi é agora o que sempre quis
tudo parece esquecido, tudo perdeu importância.
O que penso é feito de segundos somados um a um
num rasto receoso de perder o que ainda há
agarrado ao que escorrega, ao que desliza, ao precário
que agora parece nada sustentar
e contudo agarra numa teia fina de fragilidades
o que ainda há, o que ainda é 
o que ainda é tudo
e eu guardo, momento a momento
no repouso de quem aparece e eu não esqueço.







2
Momentos de serem longos
ou curtos
momentos que passam
como passa tudo
momentos de dor
momentos de alegria
momentos antes, momentos depois
numa sucessão que por momentos quase pára
mas ainda não o fez
no ser que já era
no é que já foi
no que persiste e ainda procura
a côdea que envolva
os momentos que se acumulam quentes
e depois param e arrefecem
acabam e no que se renovam
nunca mais são os momentos
nos momentos que depois
sucedem.







3
Rio num silêncio respeitoso
da simplicidade de tudo.
A explicação que a nada leva
torna mais importante a noção da maçã
que o sabor dela
derrete as sensações, deixa pensamentos
e ilusões
que se espalham como vírus
pelos momentos todos.

A frescura da relva
já não aquece os pés descalços
e o ar puro da manhã
já parece usado
por camiões de sentimentos perdidos
por momentos respirados e acabados
no acabar de ainda aqui estar
persistente e iludido.





4
Vomito o que penso sentir
e por mim pensa e sente
qualquer um sempre
mas muito, muito mais.

Na hora dos abraços
que já não há
da compreensão
que nunca houve
tudo se ergue tão estreito
que o que vejo
é tão vasto e sem mim
que eu me perco
e tudo é perfeito
fora dos momentos
que nem meus
parecem.