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terça-feira, 6 de novembro de 2018

11 2011




PAPEL BRANCO




1
OLHO           
longamente o vazio de uma folha
em branco
e lentamente nela sonho os pesadelos
e os sonhos
possíveis que eu nem conheço.

A todos eu ponho
na brancura do papel
que não sujo, incapaz de o manchar
da brancura suja que por mim pensa
acumulando borrões
luzes e escuridões
QUE AOS SAPATOS
de um caminho de esquinas escusadas
e encontrões colados
se grudam por nadas e por tudo. 






2
O silencio é feito
da ausência de som
funciona num vazio periclitante
de vontades amordaçadas
nos corações que ainda assim batem
o ruído intenso da vida
que se recusa
permanente
ao silencio
de uma folha em branco
aos acordes que nada acordam
inexistentes
na brancura de acabarem
na brancura que não há
sem discórdia.




3
O bolor do tempo
passa pelas casas
pelas gentes
e de um inicio esquecido
sobejam sempre as marcas
dedadas
de crianças e não só
que as camadas, camadas de tinta
nunca tapam, de estarem lá
na recusa
no aceitar
na firmeza que enfraquece
na grandeza que de tão pouco cresce
e uma nova camada de novo tapa
mas só cobre
não tapa
e cedo se cobre de novo
de borrões preciosos
de terem tido
a vida que os fez.

As paredes desfazem-se
nas vidas que nelas se consomem
e há dias de tudo ter a importância
de ser importante
e há outros
que nada parece importar
como tijolos colocados
para que outros neles assentem
dividindo a importância da parede
pelas unidades cada vez menores
que a fazem
e nada valem fora dela
e tão pouco
parecem valer nela.

Será que são negros os pesadelos
ou esta brancura tão intensa
e vazia de a preencher
com a vontade
que nela se esvazia
não será somente
a brancura luminosa
que nos faz as sombras
e os pesadelos
de sermos
nela marcados e acabados
como sombras da brancura viva
que por instantes fomos
permitidos.




4
Tentar o retorno
do que não retorna
não conseguir adaptar
o espírito e o corpo
ao que muda
sem que mude, o que dentro
nunca muda
de mudar sempre
lento, tão lento
de tudo ter o tempo de se acabar
mudando sempre
lentamente.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

10 2011



           
LUIS




1
A fé que salva pessoas
mas consegue esquecer
outras
poderá ter muitos nomes
ou atributos
mas no fim
é só sorte momentânea
acaso
ou dinheiro que permitiu adiar
o fim,
que é o fim dos milagres
o esgotar do tempo,
o acabar certo
de um viver incerto
mas com fim marcado.

Queria ter a sabedoria
de dissertar monocordicamente
os ditos
e os contos todos
da sabedoria popular
democráticos e sempre certos
como boatos que se fazem
a razão
de a terem,
mesmo que a não tenham
porque no fim
a razão
se faz
do que sobrou de razões
espalhadas a esmo
na prece dos conventos por erguer
na pressa de tudo serem momentos
de prece que passam sempre.





2
Tenho um enorme buraco fundo
de ser,
ser,
ser e não saber
o que me bate fundo
no vazio de ser
o que acontece
o que permanece
o que me aguenta,
de me aguentar.

O tempo não parou
na hora de o ter feito
e agora me arrasta entre tudo e nada
sem jeito
e sem ele. 





3
Já passaram dez meses
tão pouco e tanto 
se me esquecer
do que por esse Mundo
se passa
de tão pouco
e tanto
se o que constante penso
e passo
se enredar no novelo
que sinto
fazendo-se visão única
e constante.

Permanente visão.

Enredada de tanto
e tão pouco
e tanto.




4
Perspectiva
a minha, sempre a minha
numa visão que se fecha
e se alheia
do que vai caindo
e não interessa.

Parcial nas distancias
que se fazem distantes
ou não se afastam
na cisma
de esmiuçar a compreensão
que falhou
ou nunca houve
o entendimento que existiu
isolado
por ser diferente.

Tantas pedras
que para mim são paus
e nem me custa aceita-las
o que custa é aceitar sempre
dos paus
o sem remédio das doenças todas
das pedras
do espírito
das cabeças e das sentenças
que dos mesmos princípios
tão diferentes
erguem edifícios
em tudo semelhantes
a tudo
e tão diferentes
no percurso
percorrido
para que no fim
tudo seja igual
às pedras que são paus
e aos paus que são pedras.



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

8 2011




PRECURSOS DOS PERCURSOS








1
O fluir da água límpida e fresca
marca num ritmo próprio
o tempo
nos detritos que arrasta
ou transporta
diferentes.

São dela
na corrente que os arrasta
ou transporta
diferentes
no tempo
que de todos fica
o tempo de todos.

O fluir da água
límpida ou turva
marca no que limpa
ou suja
o tempo que passa
no que arrasta
e fresco ou quente
por todos passa. 





2
Foi como ter nascido colado a um edifício
e durante muito tempo
o Mundo foi a visão daquela pedra
que arranhava, lavrada num pico grosso
velha de muitas intempéries
e de tantas cores brilhantes
formadas rente aos olhos
como visão única.

O tempo e a consciência
foram descolando as visões
e devagar, muito devagar
permitiram a distância
e as pedras foram-se multiplicando
.
De inicio ainda as sentia distintas
mas pouco depois
já só pareciam
pedras iguais.

A visão da primeira parede foi maravilhosa
e criou a urgente necessidade das outras
que longamente foram apreciadas
na lentidão de um longo trajecto
na distância segura das visões
que pareciam certas
e rodeavam o centro
que parecia certo mas distante
na distância certa.

Depois veio o cansaço
e a vontade de pertencer.

Tentei encurtar a distância que se alongava
e encontrei portas,
muitas portas nas paredes todas
e das que não tinham a minha medida
às que estavam fora do tempo de as ter tido
nenhuma me servia e eu continuei andando
naquele vazio de andar em circulo
num desgaste de pedras interiores
incapaz até de encontrar a primeira visão
perdida
no sucessivo acumular
de pedras iguais.




3
Cortei hoje do acer negundo
o galho em que o meu filho
se pendurou
e mais dois para equilibrar
a contenda exterior
porque da interior já os passos dados
se fizeram tão pesados,
tão repisados
que nada mos pode cortar.

Eu tenho dois filhos
é o presente que ainda me resta
um é novo e saudável
o outro novo é e está em coma.





4
Comi lá duas vezes
serviam mal e cobravam caro
depois fechou.
Comi lá muitas vezes
serviam bem e cobravam pouco
depois fechou.

Foi assim que.

Assim eu aceitei a multa de ter cão
no receio da multa
por não ter cão.


















segunda-feira, 22 de outubro de 2018

7 2010


ELEMENTOS  DO  ESPÍRITO





1
Depois do frio,
vem o sol que não escalda
mas amorna do verde,
o frio e o agreste da noite.

As cores estão mais nítidas
e têm agora as formas
de serem reconhecíveis
pela cabeça que nelas repousa.
São como elementos
de um espírito benevolente
que as deixa inundar de uma luz
que parece a de ontem
mas com mais paz luminosa.

A luz de hoje não é de ontem
o que sinto hoje
não é o que senti ontem
o desequilíbrio de ontem
não é a falta de equilíbrio de hoje.
O descanso de hoje tem a luz
que ontem não tinha. 





1/1
Pequenas parcelas
quase imperceptíveis
permitem a osmose
do exterior de coisas
com as coisas interiores,
quietas e sossegadas
do cansaço,
de nem ele poder ser perfeito.
Por isso tudo pode ser feito,
sem pressa
na união dos elementos
que mais pesam
aos que permanecem
mais leves
num equilíbrio
de opostos.





1/2
O repouso do espírito
pouco habituado ao que é belo
de ser simples,
ausente do conflito e das questões
é sempre tão curto,
sempre pouco.

0 que é simples acaba sem aviso
na simplicidade
de ter sido simples
de ter sido e acabado.






1/3
Perdem-se tantas vezes
os verdes tão diferentes
que alcanço
e gostaria de conservar
afastados das perguntas que faço
como fuga
a um fastio que só eu sou
cansado das perguntas
e alheado das respostas
que nem espero.




2
Dar e arrepender de ter dado
de nada serve
e só inibe o dar ainda mais
na  procura do que respira
como respiramos.

O que chama e incentiva
o que de nós é melhor
numa dádiva nossa,
ao que nos aguarda
de nosso.




Sem pressa aguarda o nosso aguardar
sem pressa e nosso.




Aguardo o elemento catalisador
que me erga
da modorra de uma busca
expectante
para o proveito
de me sentir proveitoso.

Fora de mim, longe de mim
numa dádiva
que ainda não me encontrou
mas persiste certa
e no tempo que passa
com firmeza se agarra.

Eu sinto
fora de mim, em cada dádiva
muito longe, no que aguarda
sem arrependimento, o que nem entendo.












sábado, 20 de outubro de 2018

6 2010



MOMENTOS 







1
Há momentos de aparecer
ou esquecer.

A vida é feita do que surge.
Há momentos dolorosos
e outros que o não são
mas agora que nada vejo
além da impotência toda do universo
mais a minha bem maior
agora que a dor é constante
e eu nunca senti nada tão vasto tão incontornável
agora tudo se fez ridículo
tudo se resume a pouco
nada tem o sabor que eu perdi.

Aturdido esqueço o que não aparece
o que me faz falta já me sobra
na vastidão deste vazio.

A minha riqueza está nos meus filhos
de que me servem as rugas, o que pensei e o que emburrei
sem eles.
O meu corpo, o meu sentido, a minha vida
é deles
são o que eu não sou de serem mais do que eu
as minhas esperanças, o meu prolongar, a minha perfeição
de serem eles.

Esqueço o vazio agarrando e vendo o que surge
esqueço o que não vejo, o que não surge.

O que perdi é agora o que sempre quis
tudo parece esquecido, tudo perdeu importância.
O que penso é feito de segundos somados um a um
num rasto receoso de perder o que ainda há
agarrado ao que escorrega, ao que desliza, ao precário
que agora parece nada sustentar
e contudo agarra numa teia fina de fragilidades
o que ainda há, o que ainda é 
o que ainda é tudo
e eu guardo, momento a momento
no repouso de quem aparece e eu não esqueço.







2
Momentos de serem longos
ou curtos
momentos que passam
como passa tudo
momentos de dor
momentos de alegria
momentos antes, momentos depois
numa sucessão que por momentos quase pára
mas ainda não o fez
no ser que já era
no é que já foi
no que persiste e ainda procura
a côdea que envolva
os momentos que se acumulam quentes
e depois param e arrefecem
acabam e no que se renovam
nunca mais são os momentos
nos momentos que depois
sucedem.







3
Rio num silêncio respeitoso
da simplicidade de tudo.
A explicação que a nada leva
torna mais importante a noção da maçã
que o sabor dela
derrete as sensações, deixa pensamentos
e ilusões
que se espalham como vírus
pelos momentos todos.

A frescura da relva
já não aquece os pés descalços
e o ar puro da manhã
já parece usado
por camiões de sentimentos perdidos
por momentos respirados e acabados
no acabar de ainda aqui estar
persistente e iludido.





4
Vomito o que penso sentir
e por mim pensa e sente
qualquer um sempre
mas muito, muito mais.

Na hora dos abraços
que já não há
da compreensão
que nunca houve
tudo se ergue tão estreito
que o que vejo
é tão vasto e sem mim
que eu me perco
e tudo é perfeito
fora dos momentos
que nem meus
parecem.















quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Correndo

O Poema  que anseio
é sempre
o que escrevo  e  logo apago
ciente do espaço
do tempo
de sentir
o retardado
desta compreensão  tardia do...do...
passo atrasado
no tempo
no espaço
sentido
desta areia escorrendo lenta do...do...
momento
eterno
como gota
do oceano
correndo

terça-feira, 16 de outubro de 2018








NEGRO   LUMINOSO




I want with the difficult of the moment
so recent and with so much pain
I want to tell the story of the most beautiful head
outside the smile of the champions
the sun to everybody
inside the illness of no reason
the darkness of the silly nightmares.
All the words of all the world and I don’t have one
a single one to explain so much pain.

We have in our brains, the universe
we have the dreams and all the darkness
and sometimes we have no mind to make the choice
between the dark raven and life itself
 
All the possibilities in my head
and all are made of, if maybe
and always never more
with no raven, no more talking
no more, never more
maybe my dearest child, but you know
I have your brother and your mother to love
and all the people, since the first day
they are always saying to me:
“You need to be brave, you need to be brave”.

I’m brave, in my weakness, I’m brave
I need to be alive to have my heart full of memories
and to cry the most beautiful Portuguese word
saudades.




    
1
CHINA
Lentos imagino 
que se movam os camiões  
que os levam
a uns fardados  
a outros algemados
na viagem que para uns é longa
e para outros se faz tão curta
no fim com uma bala na nuca. 








2
Repetir mil vezes os mais simples gestos 
para nunca os sentir repetidos
no sabor que lhes dá alento
no sopro que os alimenta 
e os faz únicos                                                                                                                segundo a segundo pulsando únicos.

Únicos
e depois há sempre um depois
algumas vezes um antes
compartimentos que se fazem estanques
limites ao que houve
ao que há
numa aprendizagem do infinito
que parece ser nosso
mas cedo se acaba
e nem dos trapos resta o suor
do uso. 



3
Esquecer os maus momentos                                                                                      no cansaço que nem assim os esquece.
Sentir dos segundos os que se vão
e os que ficam
enquanto as certezas se firmam
como lapas
à certeza única que com elas se vai.

Perco a importância dos maus momentos
no cansaço que nem assim mos acaba.

De tudo se faz um resumo
que se vai esquecendo sempre, sempre.
Dos pedaços que agora parecem pequenos
e nunca o foram, nunca o foram
de todos se faz o resumo de uma vida
e todos foram vividos
e o resumo é sempre o mesmo
curta ou longa foi
e deixou de o ser.  



4
Meu anjo de asas queimadas
querias voar
mas eu nunca tive
o que te faltou de asas e sossego
que eu nunca tive.

O que te faltou
diz-me baixinho para que todos o ouçam
no teu silêncio.

O sossego que agora tens
envergonhado anseio roubar-to
na culpa de não te ter dado
na culpa de te querer dar
o egoísmo de me fazeres falta
a mim a mim
sim a mim.

O que te faltou
diz-me baixinho para que todos o ouçam
no teu silêncio.

A falta de ti que me magoa
mais o pesadelo que me deste
e eu nunca poderei esquecer
mesmo que do teu descanso
te consiga roubar
mesmo que contigo me possa aninhar
para que me digas baixinho
o que te faltou no teu silencio
que agora estoura
na minha cabeça vazia de estar viva
e nem o sabe.

Diz-me baixinho, o que te faltou
para que eu possa do que me falta
sentir o que te faltou
e baixinho, baixinho quero guardar.