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domingo, 3 de fevereiro de 2013

6 MOMENTOS





10
Vagas num ritmo que não me pertence
envolvem o que penso
ou o que sinto de o pensar
ou o que penso de o sentir
envolvem o que sinto.

De um oceano de vagas ondulantes
que devolvem alterosas ou suavemente
os idos barcos perdidos aos pedaços
frios de momentos estilhaçados
se fazem de outrora os momentos de agora.

Perdidos e reencontrados nas vagarosas vagas
os tormentos divagam
e devagar os momentos se preenchem
de espaços de sonho e de pesadelo
que ainda assim sobram
do que fica vago
e nem as vagas que se enrolam devagar
ocupam o espaço que se mantém vago.

Vagas enroladas no ritmo delas
dividem sensações, permitem pensamentos
enrolam os momentos divididos
para que com dor tudo se una de novo
na separação que nunca houve
na dor que também morre
e tudo é sempre tão simples que dói de o ser.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Mãe.

A pensar na morte da bezerra, acodem-me os santos e demónios das palavras todas, o vazio de cada uma, o vazio do tempo que as enche vazias sempre. O cachimbo de Magritte, o grito de Munch, a orelha cortada de Van Gogh são palavras de terem as cores de milhões e vazias ainda assim, penduradas no tempo, de as ter ou de ter tido, de as ser ou de ter sido, as cores os momentos e as palavras, seres mutantes como malas vazias que se enchem na viagem,  transbordantes  do vazio que não se encontra, do pleno que não se abraça.
Parecem copos vazios quando nascem, depois enchem de líquidos e de sólidos, prenhes de sentidos e noções.
Mãe palavra que se reproduz em cada filho. Hoje estive com ela e por momentos, no curto espaço da minha vida, percorri as perdas e os reencontros dela na mãe dos meus filhos, na mãe da mãe dos meus filhos, na mãe da minha mãe e olhei o Mundo como um ventre repleto de vida e amor e cio e tudo, saciado ou por saciar, tudo como balões que a vida enche e a morte leva, vazios de serem tudo.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Guardar os instantes emprestados

Falar do que se guarda lá no fundo
ou calar no fundo
o que se guarda
e só custa o preço de estar vivo.

Falar da minha mãe ou do meu filho,
do que passa e do que fica,
do" senta" repetido e eu sento
olhando dela o que me sinto de velho,
sentada e o meu filho deitado.

"Poemas em linha recta" dos dias todos,
todos os dias e a preguiça de estar vivo,
o calor e o frio das sensações que se calam
de guardadas.

Pontes caídas de atravessadas no calar o que mais custa.
Palavras e o perder delas em cada giz que se apaga,
em cada noção perdida,
em cada certeza incerta
no baloiçar dos momentos todos,
sentidos para de novo os perder,
frescos
renovados e guardados
e de novo perdidos.

Um dia chove e no outro também,
num há sossego e no outro não.
Dormir na chuva que embala,
acordar na que teima cair,
molhando o já molhado,
escorrendo pelos cantos,
formando riachos de saudades e barquinhos de afundar
no encharcar do papel.

Hoje tenho as soluções todas
de ontem
mas hoje não funcionam.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

As coisas e os seres.

Primeiro sentir e depois tentar entender de cada alfinete, de cada afago a razão deles, no que tocam, no que aleijam, no que deixam.
Perdurar e a chuva cai e o sol não vem, durar e os mortos enterram-se e continua o que continua.
O sol vem e a noite cai, na arca do costume se fecham os sonhos de dormir e os sonhos de acordar.

Hoje sinto o sossego
de o poder sentir
nada está pior
aparentemente.
As coisas e os seres parecem circular
numa utopia flutuante.

Abrandei
não sei o tempo que dura, são momentos sucessivos lentos
que duram o tempo de os sentir
passar.
As coisas e os seres circulam
e deles retiro o que sou
pedaço a pedaço
nos momentos lentos de me sentir repetido em cada coisa
em cada ser.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Nada antes nada depois.

As causas e as consequências, a divisão lenta da pedra e do tempo por praias sempre inteiras, de areia fina como farinha de ideias moídas como tempo que na pedra se desgasta, grosso e sem jeito, fino e escorreito como óleo fino de tempo preciso.
Preciso de causas
de dormir nelas
para que me acordem
nas razões de antes
nas razões depois.
Acontece de tudo e a chuva parece sol para que o sol possa ser chuva e o frio entra e o calor, o triste, o alegre nesta rotunda de deixar entrar as linhas direitas que nela se enrolam, guardadas como novelos de emoções, nós de confusões, novelos de sensações.
É tudo tão inteiro em cada fragmento, destacado em cada rocha que escorre dos dedos do tempo.
É tudo tão inteiro em cada momento.
É tudo tão inteiro.

Nada.
Angustia de haver um centro,
um sol negro de iluminar as sombras
dantes e depois
brancas.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O prazer da espera

Ouvindo a nona corrigi pela terceira vez o "Actos Necessários". Três pequenos livros num só e esta espera de os ver na rua.
São os melhores por serem os primeiros.
São só os que já foram há mais tempo, vivos entre 1986 e 1997, vivos ainda na companhia de mais 15 que brotam da secura de estar vivo, permitindo a frescura de ainda estar vivo.

A Editora Chiado a cumprir prazos e o tempo que não passa. Esqueço do aguardar o gozo dos momentos todos e os segundos passam na mesma, gozando comigo e os meus prazos sempre fora de prazo.

Escrever como atravessar pontes, sem dar conta ou olhando do outro lado, o caminho feito, as tábuas soltas, as pedras tropeçadas e a paisagem que caminha dando a cor dos momentos e a dor e o frio e o calor, frenéticos, ansiosos e pacíficos algumas vezes.

A capa está pronta e agora só me resta aguardar.


13 Pontos de vista



36
A depressão cura-se com apoio
palavras amigas e sorrisos
sorrisos de compreensão
sorrisos de dentro para dentro
no querer descobrir as estrelas
que habitam cada vida.

A depressão cura-se pensando
percorrendo os pontos todos
no fechar de um arco de estrelas
cadentes de um ponto de partida
para um ponto de regresso
tardio, escusado mas necessário.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

12 de Janeiro

Escrever o que me enche a cabeça, nada ou variações do mesmo tema, de nada ou de seguir e o tempo passa. No dia 12 o Luís vai fazer anos, quatro de estar deitado, de estar vivo e dependente. Já não é bipolar e o nível de consciência é um enigma que aquece o meu frio de estar vivo, o meu calor que ele refresca de estar vivo.
A mãe, o irmão, eu e ele é como ter o Universo dentro de casa com a minha sogra e os outros, os que passam, como brisas diferentes, como postais de haver mundo fora do meu Mundo.
Escrever o que me enche a cabeça de negro e faíscas, de brancura e vazio, depressão e culpa de ele ser meu e não ter pano que enxugue o caldo entornado, enquanto o tempo manso me habitua ao que sobrou e a revolta fica só minha, só e minha.