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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Datas que se marcam

Assim ou assando variando ou andando,
nascendo e morrendo
de que cor se fazem as cores do que parece,
do,
do que acontece e depois fica eterno,
no pedaço de eternidade de cada um,
de cada elo mais elo que se quebra de continuar.

Uma palavra e ao lado outra,
um sentido e o outro,
as coisas brincam às escondidas de se mostrarem
e não serem entendidas,
tudo é tão simples
que os filtros do entendimento
entopem
e variam,
incapazes da linha direita
do inicio e do fim,
ruminantes de erva que não há.

Religiões pelos cantos
todos
certezas ao alcance das mãos
e dos pés
noções fundamentais de só alguns entenderem
congelam infernos do fogo de ser
negro do tempo que passa
em camadas de ilusões
de vida e de beleza
de instantes como camadas.

As tintas de ser em camadas finas
pesam a lata inteira
e o ver e o sentir o feio e o belo
o de todos
na visão estreita de cada um.

Traços marcam antes e marcam depois
e o contar de dias é um passeio imposto que se faz vida
e agrada em cada momento
de a sentir antes
antes na espera de antes
enquanto duram os momentos de espera
de ser tudo antes
antes
e tudo é bom mesmo quando parece mau
neste pulsar de estar vivo.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Guardar

É um comer de instantes, todos maravilhosos, nem sempre fáceis de digerir e é por isso que se vomita, deitando fora para poder engolir os momentos e a sucessão deles, o cair, o erguer, o antes e o depois.
Farrapos de recordações, rasgam e remendam bocados, regressos esquecidos e pensar de novo, retornando ao tempo de saber tudo e sabendo tão pouco ainda e sempre .
A verdade de cada instante, absoluta, perde a razão e o ser no instante seguinte. De olhos fechados, de olhos abertos e o que vejo é o que sinto no funil de cada instante. Fechados ou abertos num recreio de sensações trocadas, em cada nascer, em cada partir, em cada retorno curto de o pensar.
Foi um ano de muitas mortes, muito recordar, do que guardei, do que sou de vivos e de mortos, de andar ainda com eles a meu lado, repetindo sorrisos e zangas, palavras e silêncio como gotas tão diferentes de haver sempre uma harmonia, no diluir das diferenças.
Morreu a 6 uma senhora linda, contadora de estórias e de vidas, ao ritmo da tesoura que parava, da vassoura que se aquietava para lhe ouvir o riso fácil, um riso menos vibrante desde a morte do marido mas um riso ainda assim cheio de vida. Agora morreu e o que ganhei de a conhecer em nada se perdeu.
As verdades, as certezas são de cada instante o que se ganha e logo perde. Bases ocas assentes no vazio, no acaso que agarra os sentimentos todos e os faz correr ainda           
da vida e da morte
de tantos
se faz correr
a vaidade de quem vive ainda.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Araújo e Rosinha

As voltas que são dadas para se voltar à mesma volta,
de nunca ser a mesma,
nas voltas e mais voltas que se dão,
enrolando do rabo a cabeça e o sol de ir no de voltar,
folha a folha no engrossar das voltas,
que a cabeça derrama no acumular de voltas.

Circuitos de testar,
testar sempre as soluções de estourar sempre,
mais volta menos volta,
de ver e de ouvir os ecos de fora,
entendendo deles os de dentro,
ecos como cartas que calham,
sorte da sorte de um azar que ainda não veio.

Ontem olhei longamente a dádiva de ser boa, dar numa oferta descomprometida, dar numa volta longa que nunca se perde, as voltas todas de uma vida de sacrificios. Ontem olhei da minha sogra o pai dela, subindo e descendo colinas, tocando os sinos de dar paz aos vivos e descanso aos mortos, de olhos piscos, assobiando baixinho o sossego como comida que nem todos podem. 
Ontem todos pareciam ter as qualidades dos pais, os mortos não guardam defeitos, a Jacinta a ver de todos a parte boa que quase todos desconhecem, o Luís na constante preocupação de fazer bem e de sentir que todos estão bem. Todos pareciam no dia dos pais, pedaços deles que na mesa se impunham vivos, os melhores pedaços, os anos, as recordações neles depositadas que viviam ainda.

Mas ela, ela é magnifica e ontem no entrelaçar de voltas que dão voltas, olhando, olhando dei voltas e mais voltas e nunca me senti perdido, nem desorientado, naquele ruido todo senti o sossego todo por instantes.         

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Bolor sagrado

De cada olhar uma visão diferente e depois o circundar,
linhas que dividem o espaço interior,
do exterior,
do espaço de haver coisas
e de pensar nelas como recreio de o poder fazer.

De quantas migalhas se faz a boa disposição?
Calha sem aviso este embaciar das lentes
constantes de estar,
do riso de ser.

Cedências como migalhas de um pão inteiro,
esfarelado num caminho de segundos migalhas,
sempre inteiras e perdidas no regresso impossível
ao sol e à chuva já dados neste borrifo de estrelas.

Veredas e migalhas,
verdades inteiras esfareladas em cada juízo,
em cada opinião,
em cada razão de a ter
de a não ter,
em cada canto varrido de sonhos e de visões que se apanham de parecerem únicos,
no canto de os ter como poeira de estrelas.

A morte que alimenta o ódio
e a faz banal como migalhas que não saciam
percorre o vento e a sombra do Sol toda
esfarelada pelos cantos todos, recantos e confins
perdidos, ignorados e logo recordados
em cada mais um, mais um
canto mudo.

Migalhas remanescentes de um holocausto dos dias todos
erguem-se no meio, no inicio e no fim
do Oriente, do Ocidente
a Norte e a Sul das vontades todas
e das faltas.

Como migalhas ficam as razões todas
pelas toalhas que ninguém sacode
sagradas
embrulhadas nas migalhas
sagradas
de um bolor antigo
de pão esquecido.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Faixas.

Ansiedade como gotas que empoçam
molhando
e não correndo.
Desejos encalhados de serem sonhos
ou de terem o peso de serem reais.

O que fazer quando sinto a razão
das razões todas
neste espaço de nenhuma razão?

Aguardo a perversão das ideias
todas
as que são boas e eu não sei, as más que eu suponho
e também não sei.

Aguardo juízo na faixa de Gaza
crianças vivas no teatro de as mostrar mortas.
Aguardo a vontade de erguer na vontade de deitar.
Aguardo o que é belo no fenecer
o abrir de cada flor no desfolhar de cada uma.
Aguardo sons neste silêncio que não pedi
e tanto quero quando não o tenho.
Aguardo pedaços e inteiros, interiores e exteriores
soluções que o tempo dissolve
num correr que empoça e depois corre
molhando e secando sem juízo
faixas e vidas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Abrir. O Fechar. O Repetir.

Repetir livros como segundos repetidos, portas fechadas de as poder abrir e nunca são iguais
as portas
nem o que delas se avista.
Abrir ainda repetir ainda, peças que se colocam como palavras de Lego,
mutantes unidades de um conjunto que todos podem erguer e funciona sempre, inspirado e expirado, no erguer e no desmanchar de cada palavra, de cada peça, de cada momento desfolhado.
Quadro negro de o preencher com o giz de o fazer mais negro e depois apagar e recomeçar
o inicio negro de o pintar branco.

Imagens cansadas de sonhos cansados, persistem horas a fio desfolhadas pelos momentos essenciais, quase perdidos neste persistente deformar de tudo, por nada, por baixo de nada.

Hoje tenho seguramente dois séculos, no hoje de manhã ainda só tinha cinquenta e quatro anos de os coleccionar, bizarros nos objectos e nas paixões de os ter nas mãos, como frémitos idos em cada selo em cada moeda em cada livro em cada noção, passageiros  que por mim passam nesta viagem de túneis que deformam e de Sol que deforma, sempre na forma do momento desfolhado em cada vida, em cada ideia ou pretensão dela.
As palavras
esculpem ideias ou cospem nelas
pintam doçura ou enegrecem tudo
aguardam respostas a perguntas nunca feitas
enquanto a resposta das perguntas todas
vive
nos que vivem
instantes
intervalos vazios de luzes acesas
representadas.








sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O sentido todo é estar vivo

......................

de Leonard Cohen " Hallelujah" ouvido repetidas vezes, noutras vozes que se elevam donas de um momento. De um amontoado de segundos se fazem segundos diferentes e a quem pertencem? Aos que cantam, aos que ouvem, ao silêncio de ouvir
incapaz do cantar que ondula as linhas direitas, que permite diferentes os que são iguais?
Piscinas de tempo ao sabor dos nadadores que nelas se afogam, no fundo, à superfície, afogam-se e logo se desafogam momentos, nadados no gozo, na oração e na ventura de segredos e de ritos, cantados e sentidos e verdadeiros de o serem sempre de momentos o sentir deles o momento deles, o sentir infinito deles.............

Ser

sendo
e os sentidos rumam todos
rompem
e remam todos
com destino
arrumados