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domingo, 6 de maio de 2012

Oscilações

Enganos repetidos, variações e fuga, o tema é sempre o mesmo, o assunto é uma longa esquerda, uma direita ainda igual e o zero que coloco no meio, no ponto de tentar as variações todas e fugir. Negativo, positivo e o zero das neutralidades impossíveis, pontos visiveis que se parecem tocar como mentiras, verdadeiras mentiras, verdades que mentem a verdade de estar ou ser, aparentar ou parecer de uma cor o branco que foge sempre, da cor que se perde sem ele.
O Sol entra quente na janela que o solta, pelas sensações, teclado, emoções da chuva. Da pausa do sol ou da chuva, o recordar de um e de uma, em cada prato da balança, perdida do zero infinito, por alcançar, em cada sensação, em cada cabeça encontrada, na chuva que vem e no sol que lhe sucede como variantes infinitas,do vazio de cabeças repletas.


4 CIRCULOS QUE SE ESTREITAM, VASTIDÃO QUE SE ENCERRRA.


8
A um nada se soma outro nada
e o tempo passa
e tudo se acaba.

Tudo envelhece e tudo apetece
passo o tempo adormecido
na inércia que me vive
tudo envelhece e nada apetece.

Preciso do que me rodeia
para sentir que se acaba
preciso de sentir tudo
para nada sentir.

Preciso de apalpar cada pedaço
do que posso e faço
em cada passo.
Preciso do perfeito
que em nada sinto
e contudo é em cada pedaço
de cada passo que se acaba.

Preciso da procura
que não encontra
preciso de olhar
para não ver.

Preciso do vazio que me enche
para que de mim transborde
no vazio que em tudo sinto.

Preciso de sentir
que não o faço
para sentir do que sinto
o que nunca farei.

Pouco a pouco se fecha o estreito circulo
que a todos fecha
e com todos se acaba.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Lirismos

Poesia é vida, nas formas mais ínfimas, nas mais complexas, é vida no aceitar de tudo o aperfeiçoamento de tudo, como um caminho constante, de nunca ter fim. Subir degraus, de patamares, como limites, do que cada um pode, e é sempre tão pouco mas é o possível, o que se pode de cada patamar, em cada limite vivo, de permanecer vivo como fumo que ainda se enrola em volutas intoxicantes de uma fogueira à muito apagada.

Repetir os gestos e as sensações, mil vezes, sem os conseguir nas miudezas que se recreiam infinitas, no sonho do perfeito, que voa sempre, sempre à frente dos segundos que tombam. Tenho saudades do quadro negro, do meu pai morto, que eu enchia de giz e depois apagava, como se lavasse o que incomodava, de negro ou de branco, de fundo ou profundo, repetido, guardado, repetido.

Escrever e rasgar, escrever para riscar, os sonhos de pesadelos e a chuva de sol, riscar e de novo tentar, repisando o erro que persiste sempre, em cada gesto, em cada sensação de olhos fechados, errados, amarrados de os tentar a todos sublimes e em todos falhar, o alvo que em casa deixo e a casa regresso, de o ter todo o dia, na cabeça, no erro que não o apaga negro, da cabeça de o ter todo, o dia todo.

Sentir, sentir o insuficiente de sentir, o tempo todo, as verdades todas, o tempo todo, as palavras grandes que não se abarcam, oceanos de sentir e navegar e viver e sentir o pedaço e ser.



3 SEM PAUSAS NEM ARREPENDIMENTOS


10

Vejo a verdade como sinto da América
o Atlântico que nunca atravessei.

Não há montanhas que me ergam
ao nível do infinito
ao nível do universo
não há porto do qual eu possa olhar
o que só pressinto e apalpo.

Engano-me
porque de tudo só vejo pedaços esparsos
nos pedacinhos de tudo que em todos vivem
do corpo que em tudo existe só vejo a ilusão
dos pedaços desligados e sem forma
um a um enfaixados na verdade de todos
na mentira de todos condensados
e sempre vivos na verdade de tudo.

Não existe mentira na verdade deste sonho
tudo existe e se faz verdade na mentira toda
que em tudo existe e se faz a verdade toda.

Não tenho do Graal a busca que não posso
não tenho de Deus a verdade que não posso
mas sinto que em mim bate o que não consigo
que em mim existe a verdade que não posso
enquanto aguardo a escada que não existe
e a porta está fechada e nem a chuva me molha
no degrau que eu posso e a nada me leva.

Vejo a verdade como sinto da América
o Atlântico que nunca atravessei

Tenho das ideias a certeza de serem nada
sem os idiotas que as façam funcionar.
tenho do que penso o tempo que me acompanha
e é quando penso que o sinto mais meu.
ideias são o que não falta ao vento
arrastadas no tempo que as leva
de resto me amanho no que vivo e não sinto meu
e quando penso me iludo
me arrasto e me desgasto e nem penso.

Vejo a verdade como sinto da América
o Atlântico que nunca atravessei




















terça-feira, 1 de maio de 2012

1 de Maio

Vou em 54, todos diferentes, pelos locais, pelas conotações do dia ou por ser o primeiro, do mês das novenas, o mês de Fátima ou do Estado Novo, velho antes de o ser. Aonde pára o primeiro, depois de Abril, o primeiro? Os das correrias, mortos e cartazes e uma fé que parecia virar o Mundo, sacudindo o feio, o acabado e colocando na toalha o espirito do que é belo, distorcido desde o inicio, pela fome do proibido, pela ditadura da liberdade, pelo excesso.
É só mais um dia, nascem amigos, morrem Senas e é só mais um dia, que já foi vermelho e agora parece azul, de gelo, ou vice versa para que as cores não pareçam ser mais do que são, cores e nada mais, o resto no somar de dias, aventurados, todos, abençoados, é o que é
de passos que agora se dão, de portas que sempre se fecharam, no abrir de cada uma, de cada dia, sempre o primeiro dos que o seguem
como contas por pagar, sempre por pagar e sempre pagas na novena de cada dia, no ajoelhar de aguentar, as novidades e as cores de cada dia, sempre o primeiro e sempre, o primeiro.

domingo, 29 de abril de 2012

6 MOMENTOS

36
Mais um copo para recordar
que é necessário esquecer
e as mãos tremem aflitas
e a boca sequiosa engole sem saborear
a sede que não é sede
e mais forte o é………. contudo
e com nada também.

Quase todos remelosos e amachucados
“pela porca da vida”
esquecendo a porcaria que dela fizeram
porque o azar é sempre deles
e a sorte dos outros
e por isso mais vale esperar sentado
de copo na mão
que ela passe ao alcance do pé
não vá ela entornar o copo cheio
de recordações que mais vale esquecer.

De que são feitos os momentos
quando se vive para esquecer
e tudo se apaga momento a momento
no proveito de nunca o ter tido?


INSTANTES

No século passado, numa altura maravilhosa, de escrever, de pensar e sentir de tudo a leveza, que ainda não apanhei e agora nem consigo  deitar fora, porque me apanhou e se fez o peso, de ainda, ainda estar por aqui, confinado aos meus, ao que sou dos meus.
No século passado, encontrei um vizinho, nem dele sabia o nome, mas vi a carroça que o tinha sentado na soleira de uma porta, ainda longe de casa. Não vendo outro burro, capaz do frete de o levar, desinquietei a santidade daquele olhar vazio e depois caminhei acompanhado da resposta. " A Terra anda às voltas, estou à espera que a minha casa passe! "
Já esqueci o que na altura me ocupou a cabeça, sempre coleccionei tudo, agora esqueço quase tudo, limitado por uma caderneta pequena, aos cromos possíveis como copos vazios, esquecidos dos sabores, vagos e curtos, que contaram.
Pouco antes ou pouco depois, o filho, outro respeitável carroceiro, ficou eternamente agradecido, enquanto bêbado, de eu lhe ter erguido a cabeça, de cinco centímetros de água, não mais do que isso, acudindo aos berros aflitos, que soltava enquanto nadava quase a seco, enfiando a boca e o nariz, nos intervalos dos berros aflitos, na água.
Olho da água, o que nela se afoga, límpida e das pessoas o que as cobre por dentro, o que as move, alheias de o fazerem, enquanto o fazem, sempre certas, sempre definitivamente certas, em cada esquina, em cada loja de certezas, na cor de cada um, com copos ou sem copos, as miragens são certezas e verdades que não se podem contrariar. Cardos mentais podem ser manjares ao gosto de quem os come, o que se perde em cada instante, se perde, só sobra o aproveitar, do que se perde, a miragem de cada instante, aceitando o que são, no que sou de instantes roubados ao vazio.
Reter da paisagem, os marcos que dela marcam o alongar de um caminho que se acaba, todos acabam. Reter da paisagem, os pedaços possíveis dela, os que se guardam sem saber porquê, os mais belos mas nem sempre, baralhados de tentar entender do labirinto, o céu de cada esquina dobrada, de cada afunilar do caminho, de cada parede, o céu de estar lá em cada erguer da cabeça.

domingo, 22 de abril de 2012

Cristal 2012

Os dias sucedem,  há o sim e há o não, mesmo assim sucedem, nas datas marcadas, que passam, nas não marcadas, que também passam, no tempo sempre incógnito, de ser de cada um, o que cada um sente, do mesmo tempo, das soluções todas, dos fins e dos inícios todos. Quantas vezes mudou este Mundo que continua desconhecido, ao sabor de vontades, que nascem e morrem, retorcendo estórias e a historia, disputando verdades, que esquecem sempre a única verdade, de cada vida, de cada pedaço vivo.
Os ismos passam todos e ao gosto do que passa se escreve o que passou, depois muda, como mudam as cabeças e as sentenças e os níveis de sanidade mental, de cada um, de cada grupo, de cada crença, de cada Breyvic, de cada Hitler, de cada Cristo, de cada Buda, repercutidos no tempo como ecos prolongados, como guinchos sufocados. Palavras longas, filosofias imensas e nenhuma consegue a pausa de cada batimento, de cada pedaço, de cada falta, de a sentir só porque falta.
O Mundo todo e a falta dele, toda, em cada cabeça.


4
Kadafi foi assassinado hoje
e deus é grande
o Zé também faleceu hoje
assim o quis deus
e uma menina de dois anos
chinesa
foi atropelada, não sei quando
pela indiferença, de muitos
assim o quis, a vergonha
que por eles e por mim
sinto
de estar vivo
indiferente.



9
As mantas que cobrem o cadáver de Kadafi
parecem cobrir as palavras
as provocações narcisistas
de um demente morto
mas de certeza que não cobrem
a clemência que ele não deu
nem lhe deram.

A morte perdoa tudo
e das águas turvas de um ditador morto
se vai erguer outro
invocando liberdades e patriotismos
islamismo e outros sismos
que abanam e abalam este Mundo
tão pequeno de os permitir
enorme de os consentir.

Como quem deles ignora a presença
e o cheiro
de tão pequenos
na descarga constante de um tempo
cristalino
de ter sempre a solução de tudo
de ser sempre a solução de tudo.


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Crista 2012l

52
Ser poeta é ser parte de tudo
e nunca o conseguir,
nesta sensação arrastada
de ser
a face errada de um espelho,
que se esfrega,
de parecer a luz,
que nunca lhe pertenceu