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terça-feira, 1 de maio de 2012

1 de Maio

Vou em 54, todos diferentes, pelos locais, pelas conotações do dia ou por ser o primeiro, do mês das novenas, o mês de Fátima ou do Estado Novo, velho antes de o ser. Aonde pára o primeiro, depois de Abril, o primeiro? Os das correrias, mortos e cartazes e uma fé que parecia virar o Mundo, sacudindo o feio, o acabado e colocando na toalha o espirito do que é belo, distorcido desde o inicio, pela fome do proibido, pela ditadura da liberdade, pelo excesso.
É só mais um dia, nascem amigos, morrem Senas e é só mais um dia, que já foi vermelho e agora parece azul, de gelo, ou vice versa para que as cores não pareçam ser mais do que são, cores e nada mais, o resto no somar de dias, aventurados, todos, abençoados, é o que é
de passos que agora se dão, de portas que sempre se fecharam, no abrir de cada uma, de cada dia, sempre o primeiro dos que o seguem
como contas por pagar, sempre por pagar e sempre pagas na novena de cada dia, no ajoelhar de aguentar, as novidades e as cores de cada dia, sempre o primeiro e sempre, o primeiro.

domingo, 29 de abril de 2012

6 MOMENTOS

36
Mais um copo para recordar
que é necessário esquecer
e as mãos tremem aflitas
e a boca sequiosa engole sem saborear
a sede que não é sede
e mais forte o é………. contudo
e com nada também.

Quase todos remelosos e amachucados
“pela porca da vida”
esquecendo a porcaria que dela fizeram
porque o azar é sempre deles
e a sorte dos outros
e por isso mais vale esperar sentado
de copo na mão
que ela passe ao alcance do pé
não vá ela entornar o copo cheio
de recordações que mais vale esquecer.

De que são feitos os momentos
quando se vive para esquecer
e tudo se apaga momento a momento
no proveito de nunca o ter tido?


INSTANTES

No século passado, numa altura maravilhosa, de escrever, de pensar e sentir de tudo a leveza, que ainda não apanhei e agora nem consigo  deitar fora, porque me apanhou e se fez o peso, de ainda, ainda estar por aqui, confinado aos meus, ao que sou dos meus.
No século passado, encontrei um vizinho, nem dele sabia o nome, mas vi a carroça que o tinha sentado na soleira de uma porta, ainda longe de casa. Não vendo outro burro, capaz do frete de o levar, desinquietei a santidade daquele olhar vazio e depois caminhei acompanhado da resposta. " A Terra anda às voltas, estou à espera que a minha casa passe! "
Já esqueci o que na altura me ocupou a cabeça, sempre coleccionei tudo, agora esqueço quase tudo, limitado por uma caderneta pequena, aos cromos possíveis como copos vazios, esquecidos dos sabores, vagos e curtos, que contaram.
Pouco antes ou pouco depois, o filho, outro respeitável carroceiro, ficou eternamente agradecido, enquanto bêbado, de eu lhe ter erguido a cabeça, de cinco centímetros de água, não mais do que isso, acudindo aos berros aflitos, que soltava enquanto nadava quase a seco, enfiando a boca e o nariz, nos intervalos dos berros aflitos, na água.
Olho da água, o que nela se afoga, límpida e das pessoas o que as cobre por dentro, o que as move, alheias de o fazerem, enquanto o fazem, sempre certas, sempre definitivamente certas, em cada esquina, em cada loja de certezas, na cor de cada um, com copos ou sem copos, as miragens são certezas e verdades que não se podem contrariar. Cardos mentais podem ser manjares ao gosto de quem os come, o que se perde em cada instante, se perde, só sobra o aproveitar, do que se perde, a miragem de cada instante, aceitando o que são, no que sou de instantes roubados ao vazio.
Reter da paisagem, os marcos que dela marcam o alongar de um caminho que se acaba, todos acabam. Reter da paisagem, os pedaços possíveis dela, os que se guardam sem saber porquê, os mais belos mas nem sempre, baralhados de tentar entender do labirinto, o céu de cada esquina dobrada, de cada afunilar do caminho, de cada parede, o céu de estar lá em cada erguer da cabeça.

domingo, 22 de abril de 2012

Cristal 2012

Os dias sucedem,  há o sim e há o não, mesmo assim sucedem, nas datas marcadas, que passam, nas não marcadas, que também passam, no tempo sempre incógnito, de ser de cada um, o que cada um sente, do mesmo tempo, das soluções todas, dos fins e dos inícios todos. Quantas vezes mudou este Mundo que continua desconhecido, ao sabor de vontades, que nascem e morrem, retorcendo estórias e a historia, disputando verdades, que esquecem sempre a única verdade, de cada vida, de cada pedaço vivo.
Os ismos passam todos e ao gosto do que passa se escreve o que passou, depois muda, como mudam as cabeças e as sentenças e os níveis de sanidade mental, de cada um, de cada grupo, de cada crença, de cada Breyvic, de cada Hitler, de cada Cristo, de cada Buda, repercutidos no tempo como ecos prolongados, como guinchos sufocados. Palavras longas, filosofias imensas e nenhuma consegue a pausa de cada batimento, de cada pedaço, de cada falta, de a sentir só porque falta.
O Mundo todo e a falta dele, toda, em cada cabeça.


4
Kadafi foi assassinado hoje
e deus é grande
o Zé também faleceu hoje
assim o quis deus
e uma menina de dois anos
chinesa
foi atropelada, não sei quando
pela indiferença, de muitos
assim o quis, a vergonha
que por eles e por mim
sinto
de estar vivo
indiferente.



9
As mantas que cobrem o cadáver de Kadafi
parecem cobrir as palavras
as provocações narcisistas
de um demente morto
mas de certeza que não cobrem
a clemência que ele não deu
nem lhe deram.

A morte perdoa tudo
e das águas turvas de um ditador morto
se vai erguer outro
invocando liberdades e patriotismos
islamismo e outros sismos
que abanam e abalam este Mundo
tão pequeno de os permitir
enorme de os consentir.

Como quem deles ignora a presença
e o cheiro
de tão pequenos
na descarga constante de um tempo
cristalino
de ter sempre a solução de tudo
de ser sempre a solução de tudo.


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Crista 2012l

52
Ser poeta é ser parte de tudo
e nunca o conseguir,
nesta sensação arrastada
de ser
a face errada de um espelho,
que se esfrega,
de parecer a luz,
que nunca lhe pertenceu

Actos Necesssarios 1986


                                             4
                                            Sonhei ser o reflexo vazio    
                                            de um espelho que me continha
                                            e tudo me roçava e tudo a meu lado passava
                                            num desgaste lento de sensações vazias
                                            que o tempo comia que o tempo trazia
                                            enquanto o reflexo vazio se mantinha
                                            nos riscos que nele se cruzavam
                                            sem dele fazerem parte
                                            cada vez mais fraco, cada vez mais fraco
                                            mas sempre vazio.



Cristal 2012


terça-feira, 17 de abril de 2012

Não há tempo?

Eu sempre o tive, nunca me faltou tempo, circulo nele e a cada circulo que se fecha, retomo o caminho, de o ter ainda. Tempo como empréstimo, de ainda haver crédito, de ter crise na cabeça, desde sempre. Balança de um equilíbrio de tolos, tolices que rasgam, tolices que assentam, a poeira do caminho e o rasgar da vontade, que rosna o tempo, de o ter ainda, sempre encontrado, de o haver ainda.
Estou vivo e o resto é uma paisagem que se alonga, das janelas que a permitem, das rodas velozes, desenroladas na paisagem que se avista, trepidantes de um destino que parece não o ter.
Túneis que encerram momentos, tempos de ver mais, por dentro, para dentro, como luz, de ser mais forte, de não a ter, por momentos.
Clareando ou chovendo, luz ou chuva, trepidante regressa o que não partiu, das janelas, que se abrem à fuligem,  aos aromas, como tempos de abundância, calhados ou desencalhados, de um tempo que parecia não os permitir, repetido ou repetitivo, de o ter ainda, numa benção amarga, por vezes, no paladar dos sabores todos, dos possíveis, do tempo, de o ter e de ser.
O que se avista, parece melhor, a chuva mansa, os sons e o que são, de serem avistados como panos desenrolados, de uma cor que o sonho precede sempre, esbatida num feitio que não se usa e contudo, parece sempre, o melhor.
Delírios que só o tempo permite, de o ter todo, sempre inteiro, delirante.
Depois, no depois é o tempo de não ter tempo.