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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

13 Pontos de vista

18
O exorcismo do que dói do que mais importa
é feito em viagem
e sentido nas paragens
ou nos trajectos de conseguir manter abertos
os olhos ou a visão de dentro
a das cortinas que nem sempre se cerram
no descanso do que basta.

Tudo se resume a uma passagem curta
e nela o que se come, o que se aproveita
é o proveito imenso de tudo ser tão curto
no desfocar das visões para que nenhuma se repita
no serem todas diferentes
de todas serem sentidas
de maneira diferente
por quem as sente ou só pensa que sente
como quem de nada, cria nada e pensa ter tudo
no rebolar das ideias que atenuam constantes
da paisagem a passagem ainda.

Janelas da razão que passa ao longe na linha das montanhas,
ou nas ondas
ou nas casas de estarem lá alheias de gente.
As sensações desenrolam-se como se fossem as linhas de um sismógrafo
nos abanões sucessivos de uma paisagem que se desenrola
em pequenos tremores de vida que palpita
abanões que se repetem ainda
tremores e abanões que palpitam ainda
arredados do grande abanão.

O meu filho está bem, o Vítor regressou do Alentejo
a paisagem ganhou as cores de um sossego aparente
que a Paula propicia.
Nem os gatos me incomodam
ouço Brahms como quem reza
e pela terceira vez como se ainda fosse a primeira
ouço o concerto nº1 para piano
e tento entender os sismos que me estremecem
como se fossem eles e só eles
a recusa que ainda posso da morte que a meu lado
sorri no sorriso de tudo e todos que me foram
que fui
e se esgotam nesta passagem.




12 ABC


7
O sentido da vida
em cada prego que nela se espeta
é estar vivo
como madeira rija ou macia
nos pregos que torcem
e nos que quebram
nos que entram fundo
e nela permanecem
apodrecendo com ela
e acabando com ela.

Misérias pequenas como areia fina
que desgasta o que dela se desgasta
num proveito de esvair
ao vento que a espalha
como sensações por sentir
num regresso sem partida.

Tenta-se a vida toda
encontrar a verdade que a valha
para no fim sentir
no que se vai
a verdade
na vida que se vai
abençoada e desperdiçada
toda.




terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

16 Cristal

32
Quinze anos e prescreveram
do dito ”estripador”
os crimes que o fizeram famoso
mas anónimo.

Quinze anos
nem a idade, da vitima mais nova
atingiu
para poder estar livre, inimputável.

Para as vitimas não houve recurso
nem tempo para deixarem de ser
o que foram sem remissão.

Quinze anos, ou então recurso a recurso
prescreve a culpa
de quem mata ou de quem rouba
para que a culpa seja sempre órfã
ou de quem é burro
de não ter roubado o suficiente
de não ter esperado o bastante.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

13 Pontos de vista

26
Do livro verde de Kadafi
ao vermelho de Mao
sem esquecer o negro de Hitler
o que não falta é cor e elegância
imposta
é verdade
mas o que seria de nós todos
se as vontades prevalecessem
e os caminhos não fossem asfaltados
por quem o sabe?
Para que ninguém tropece na tolice
de pensar que vive
ou até que respira
sem autorização de quem vive
e se empenha altruisticamente
para que nós o possamos fazer
também
do que sobra.

O homem necessita de quem o mande
com jeito ou sem jeito para o raio que o parta.
Obedecer porque poucos são os que podem mandar
é a regra inevitável de um mundo regido pela força
que o diga o mundo islâmico
e as lapidadas, os enforcados, os fuzilados
e outros que tais
incapazes de aceitar a grandeza do mundo em que vivem
e dele arredados com a mercê de uma morte sempre justa.

Nomear esse Povo que nem existe
que nunca foi perseguido
é desculpar, talvez, a idiotice de um extermínio falhado
logo
inexistente.
Quando não morrem todos é escusado falar em Genocídios
quando só morre meia dúzia de milhões
ainda por cima questionáveis
foi pecado pequeno, ou talvez asneira grande, falhanço
que felizmente há quem queira rectificar
não dando um só dia de sossego a esse Povo que nem existe
e por isso, só por isso e acima de tudo além disso
merece todas as benesses do mundo islâmico
que num acto de justiça divina
se une, se une na força de uma razão acima das razões todas
e num sopro de fé congregada do mapa varre
o que afinal nem existe.

Dos senhores que vão caindo das Tunísias, Libias e Egiptos
eu só aguardo os varredores da trampa que foi sendo feita
para poder sentir o perfume da que vai ser feita
dinasticamente
tudo em família se arranja
e de um cão se arranja outro cão
e de um canalha se faz outro canalha
para que Meio Mundo possa viver
na Idade Média do pensamento
não para ser um novo Reich de mil anos
mas o atraso de um Voltaire por nascer
e antes dele
o atraso de um Renascimento erguido às estrelas
no quebrar
de um arco
perfeito.

Tanta miséria acumulada, tanto sofrimento e tanta dor
e os valores que se vão firmando
e nada valem
arredados sempre do valor único da vida
de uma só, uma só
que seja
vida.

12 ABC

47
No Japão em turnos de cinquenta
Homens entregam as suas vidas a uma luta
para o bem de todos
que nunca será o deles
tão certa é a morte que os aguarda
e contudo aceitam na coragem de a conhecerem.

Aqui, por orgulho, não se cede uma virgula
ao que não cede uma letra ou um numero
porque o bem comum é só
o de alguns compadrios e favores por pagar
e desde os saudosistas de Estaline
que sonham com a democracia da Coreia do Norte
aos que defendem as ditaduras do Mundo Islâmico
um lago sem fundo de intenções afogadas
boas e más se afundam na vergonha
de não haver mais vergonha.

Unir esforços e a eles entregar o valor
dos valores todos, o sacrifício do que mais importa
numa dádiva sem retorno.

Unir os conflitos e arredar os interesses particulares
esquecer as devoções pelo ocidente, pelo oriente
e congregar esforços no que somos
pelo que somos
num sacrifício de todos, pelo bem de todos.

O remédio é só um mas todos retardam dos dedos
a garganta e a solução inevitável
de quem gastou e agora tem que pagar
de quem comeu e agora tem que vomitar
inevitavelmente.

Não entendo esta falta de entendimento
esta recusa de um consenso
quando há vidas que se entregam
e aqui
tudo parece ser um jogo de interesses
de dinheiro e prestigio
enquanto se berra
um patriotismo
pelo qual
nada
se quer sacrificar.

Domingo

Escrevi uma enchurrada de textos que não molharam nada e nada mudam, neste assim-assim, umas vezes negro, geralmente cinzento de crise e de carnaval demasiado mascarado, como bombas de riso e alegria de espelhos, na hora certa partidos e rebentados, em milhões de fragmentos, em milhões de esgares de riso e alegria com hora marcada.
Da primavera árabe às prescrições, da RTP à SIC, o que marcou mais o ano passado e ajudou a conciliar o que em casa me marca?

15 MEDIDAS
4
Maria José Nogueira Pinto
e a postura e a dignidade
de parecer que morreu de repente
numa noticia de ultima hora
quando afinal, lentamente
contou os dias que se subtraiam
numa fraqueza, numa traição do corpo
ao espirito que de novo venceu
merecendo plenamente o descanso
dos fortes que também acabam
mas com a luz, luminosos
de serem recordados
e saudados.
    

25
“o medo  é uma cena que a mim não me assiste”
A profundidade de um pensamento destes
revela talvez
uma benéfica intoxicação de chumbo
que a leveza de espirito do Hélio
controlou
para que o balão com rodas
não se erguesse muito acima
das imagens.

O que pensa uma criança enquanto toureia carros?

Desafios a vencer como quem dobra esquinas
negras
no gozo de as dobrar
na magia de um teclado
que nem sempre sobrevive
no outro lado
o da magia de uma só vida
uma só.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ser

Todos os dias somos e nem sempre o somos, sempre da mesma maneira. Oscilam as vontades de um dia chover e no outro tremer, de um frio que não se explica, no calor de estar vivo e por isso existe, com mais força, de o sentir quente no respirar, no ritmo de ser ou estar vivo e arrastar razões que se perdem fáceis e se ganham inúteis.
Sou o que não sou, de mau ou de bom, para muitos que me conhecem, como eu os conheço, mal. Retiro opiniões como icebergues, que pinto da cor que não têm, submersos. Sou em cada dose de porcaria que vejo, a porcaria que sou, para quem me olha e só avista o insulto, o tropeção fácil, o acordar da chuva ou do sol, o adormecer de tantas  vezes para que, de motivo nenhum, se possam fazer os motivos todos.

11 PAPEL BRANCO


55
Nos dias de tolerância
do que é feito de merda
eu recordo a merda de que sou feito
e quase desculpo os erros todos
na lembrança da minha consciência
que recorda os meus
e os aumenta com o riso da perfeição
impossivel.