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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ser

Todos os dias somos e nem sempre o somos, sempre da mesma maneira. Oscilam as vontades de um dia chover e no outro tremer, de um frio que não se explica, no calor de estar vivo e por isso existe, com mais força, de o sentir quente no respirar, no ritmo de ser ou estar vivo e arrastar razões que se perdem fáceis e se ganham inúteis.
Sou o que não sou, de mau ou de bom, para muitos que me conhecem, como eu os conheço, mal. Retiro opiniões como icebergues, que pinto da cor que não têm, submersos. Sou em cada dose de porcaria que vejo, a porcaria que sou, para quem me olha e só avista o insulto, o tropeção fácil, o acordar da chuva ou do sol, o adormecer de tantas  vezes para que, de motivo nenhum, se possam fazer os motivos todos.

11 PAPEL BRANCO


55
Nos dias de tolerância
do que é feito de merda
eu recordo a merda de que sou feito
e quase desculpo os erros todos
na lembrança da minha consciência
que recorda os meus
e os aumenta com o riso da perfeição
impossivel.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

15 Medidas


28
Maçãs que tombam de as tentar entender
e a ordem que permite o que acontece
numa mutação lenta que não nos pertence.

Aonde param as medidas do Universo
se ele é Infinito.

A desordem criativa
permite explicar tudo
porque a explicação de nada
é de tudo a explicação de tudo
também
e o resto, se o houver, é relativo
é desordem, cansaço ou peso
de querer muito permanecer
neste relativo bem estar
de haver Infinito e Perfeito
por entender
na desordem viciante de querer fazer
o que já está feito
de querer entender do que vejo
e não entendo
o que sou em cada momento
depressivo de continuar vivo.

As viagens que faço são longas
de serem tão curtas no tempo
de as ter em cada sonho, acordado
desacordado ou discordando
de ser sempre o menino
que já não sou
de o ser sempre na compreensão
que por mim viaja
lentamente

no sonho de estar acordado
e perdido da compreensão
que por mim viaja

olhando as janelas da paisagem que passa
e só o menino entende
e não acorda
ou acorda mas não concorda
e assim viaja na boleia constante
da compreensão envelhecida
perdida.

Faço um caminho constante
de acordar a consciência
e andar passo a passo.

Longos ou curtos
na cadência dos momentos
das paixões e dos tormentos
das soluções que passam
ou perpassam
no cinema de ter cabeça
que não se desliga.

Da insónia ou sonho que acorda os passos todos
se  fazem os iludidos
os conscientes, os sobreviventes
de ainda permanecerem visíveis
no descerrar das cortinas do tempo
uma por uma, no tempo de cada uma
e de cada espelho de Dorian inteiro.

O paraíso aos pedaços
em cada pedaço do Universo
o Infinito partícula por partícula
para que tudo possa ser importante
no que se perde e no que se ganha
de repetitivo mas vivo.

Do saturado se faz o sedento
e o cansaço de ser espremido
é o cansaço de haver sempre gotas
guardadas e preciosas
de as querer para sempre
guardadas como espinhos
cravados
como hábitos que permanecem
na dor e no silêncio.

Estarei acordado, ou este delírio constante
é isso
o que por mim vive
de ponto a ponto
de tudo serem pontas por amarrar
pontos a unir
no desgravar de todos
para que nunca pareça repetido
o que se repete sucessivo
ponto a ponto
de cada
e em cada momento
de serem sempre a novidade constante
da novidade que se repete constante
como um pêndulo
que não acrescenta tempo
nem o dá
enquanto o marca
no balanço tolo
que a nada leva
e a nenhum lado
vai ter.





Simples

Tudo é simples, depois complica-se em cada sopro de vida, em cada razão que ergue, a razão que prevalece das razões todas, como se um poço simples de ter água no fundo, se multiplicasse pelas sedes de tantos poços, que não os havia, mas agora há, no tempo todo e no que não há.
Tudo é simples e a razão e a verdade só complicam, de um jogo, a bola que nem sempre se defende, da verdade que não é dela.
14 de Fevereiro, dia dos namorados, namoro a vida de ainda a ter, na verdade de ter os meus e tudo é tão simples com eles, que limpam constantes, o vidro transparente e sem cor, que eu sujo de cores e complicações. Sentimentos que ultrapassam o que sou, no riso de não ser, o que sou deles e de tudo aos pedaços que sujo e limpo de ser deles o funil que os sente de os agarrar e a todos limpar e a todos sujar do que sou de pedaços, deles e de todos, aos pedaços, no pedaço que sou, de vida, de vida e de morte.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

youtube 30 minutos jardineiro poeta

O texto 41, foi lido por mim no programa da RTP 30 Minutos, em que eu sou chamado "Jardineiro Poeta".
Pertence a um período de resignação, aceitação e conformismo, entre Novembro e Dezembro de 2009, com o Luís em casa e a morte fora, graças aos cuidados e carinhos de que foi rodeado. 

5 Negro Luminoso

36
Agarrado a esta frágil palha
para que não se afogue
a esta ténue chama para que não se apague
agarro felicidades pequenas
como vitorias enormes.
esqueço até o que era
agarrado ao que agora é.



37
Pequenas satisfações
pequenos anseios
felicidade que se mede gotejante
nos sorrisos que sobram
de ainda haver
de ainda haver vida
que quer permanecer
viva.



41
Do ainda estares vivo
brotam pequenas flores de contentamento
que as minhas lágrimas regam
num fraco consolo
que ainda assim consola
de ainda estares vivo.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

5 Negro Luminoso

22.
O sentido da vida nela se encontra
e nela se encerra.
Como bolhas de sabão que crescem
ou quase nem crescem
que sobem ou quase nem sobem
mas todas acabam, num instante
tão curto, tão curto
que o proveito, é o terem durado
um curto instante, curto.

O sentido da vida nela se encerra
e nela se encontra
em cada vida, em cada uma
que se acaba, que se acaba.

O sentido da vida nela se encontra
nas vidas que se unem
nos pedaços esparsos que a compõem
no que se perde e no que se ganha
de partidas sem regresso
na dor que oprime, no prazer que sufoca
na alegria que se queda vã…
o sentido da vida nela se encerra.


5 Negro Luminoso

21
Morreu um Homem bom
cumpriu o destino de quem vive
com a mesma rectidão, que poderia ser o seu nome
se não fosse Manuel Lopes de Seabra
o que não incomodava nunca
mas queria ajudar sempre.

Era do tempo
em que as coisas se faziam para durar
os panos nunca eram velhos mas usados
e as ideias eram pensadas e a palavra era um tesouro
que se preservava limpo e reservado
para quem o merecia.

O que dizer da paz que dele me transbordava
do sossego que ele me conseguia
de estar lá, em cada pergunta, em cada presença
de estar lá no local que ele conseguia
sempre certo e oportuno.

Morreu um Homem bom
uma vida longa fez-se tão curta
na hora de o perder e sentir fundo e longo
o vazio que deixou de Homem bom
que se foi, velho na idade, tão jovem nos valores
que toda a vida cultivou e tão raros se fizeram
no que agora sobra sem ele.