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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

3 Sem pausas nem arrependimentos

25
Me sinto dos extremos que não posso
o meio que a nada leva
e a tudo se liga
não se ligando a nada

Sinto-me limitado
ao pião que no seu centro roda
liberto por instantes por uma corda
e que roda enquanto pode roda
para se quedar sempre inerte

Por mais voltas que sejam dadas
sempre sobram
as voltas que não foram dadas.
As visões foram feitas
para que ninguém as veja         
nas mãos encerradas
e os sonhos só existem
para que se sonhem
e logo se acabam.

Roda, roda sempre enquanto o podes
pião de tudo
roda, roda sempre no teu centro
enrola-te no passeio
que só tu podes
rodando sempre no teu centro.

sábado, 28 de janeiro de 2012

2 O encontro das diferenças

22
O que fazer das palavras
se quando sinto
é sem elas que o faço?

Como descrever o momento
se ele é para ser vivido
e só no momento é sentido?

Que fazer do que é belo
se o que vejo abarca as palavras todas
e me abandona sem elas?


Vaguear

Vou prosseguir estas mensagens, com textos dos primeiros cinco livros, entregues na R.T.P.
Do primeiro ao quinto, que na primeira página deste blogue, apresento e tento explicar. Numa escolha minha do que é meu, num regresso, ao vaguear, por veredas tantas vezes percorridas como se os pés fossem dois pontos de interrogação. Depois há o" Negro Luminoso" e o escrever compulsivo, destes dois anos e meio, em que travar, só abranda da corrida o passo.
O que é poesia? O que é um livro? O que sou ou o que somos? Jogos de aparências, de passagens, de sentimentos que se guardam e aos quais de vez em quando se sacode a poeira, de a ter na cabeça, de os ter como versos, passando e marcando os momentos de os tentar de novo, em cada marca, em cada linha, em cada palavra, em cada letra, em cada brancura por preencher. Ainda...
Resumindo, vou vaguear hoje pelo segundo.

domingo, 22 de janeiro de 2012

1 Actos Necessários - Pensar o olhar


13
O prazer de não sentir o tempo
enquanto sentado e preguiçoso vou bocejando
enquanto os ponteiros por mim andam
enquanto sonolento e sem pressa
persisto em olhar o que me rodeia.

Cinco minutos já passaram
pego no jornal engulo o café
e deixo desfilar os tiques, as pressas, os rostos
de tanta gente que logo esqueço
nesta pressa que em mim sinto
de não ter pressa.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

6 Momentos

2
Momentos de serem longos
ou curtos
momentos que passam
como passa tudo
momentos de dor
momentos de alegria
momentos antes, momentos depois
numa sucessão que por momentos quase pára
mas ainda não o fez
no ser que já era
no é que já foi
no que persiste e ainda procura
a côdea que envolva
os momentos que se acumulam quentes
e depois param e arrefecem
acabam e no que se renovam
nunca mais são os momentos
nos momentos que depois
sucedem.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ontem

Ontem, na Boa Nova, um grupo de alunos parou, eu tinha a máscara "não me chateiem" colocada e mesmo assim, de uma forma cativante, não sei quantos me perguntaram se eu era , o que tinha aparecido na televisão. Varrendo folhas, relva e detritos, numa dimensão de espaço e de tempo que não entendo, olhei-os desfocados, como se fossem um só, depois acordei, quando um deles, me pediu para dizer um poema, sorri no fundo negro e frio que eles tinham iluminado e tal como lhes poderia ter dito, que a Dobrada não se serve fria, dei-lhes este blog.
Somos linhas que se tocam e se afastam e eles tocaram-me, na pausa que me ofereceram.

16 Cristal

1
Surgem de quase nada
empilhadas
caixas de cristal
transparentes de momentos, que guardam
eternos
estilhaçados no peso, de serem muitos
os momentos
tantos
que são só, e apenas, o que são
momentos
estilhaçados e acabados
no abrir das mãos e no fumar das ideias
que se acumulam
empilhadas
como caixas de cristal
estilhaçadas
no fumo que pesa de um ardor
de momentos e momentos
transparentes, encerrados
sentidos e acabados
momentos empilhados.