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domingo, 15 de janeiro de 2012

15 Medidas

1
O zero marca o fim ou o limite
do que sobe e do que desce.

Zero e depois o inferno do frio
e do calor
o excesso e a falta
numa medida que se alonga sempre
desmedida.

Do primeiro milímetro encho a cabeça
de medidas a que não pertenço
e nelas mergulho
no espaço e no tempo
que parece alongado
de eu fazer dele 
parte
desconhecida
dele
num espaço paralelo
de um tempo envidraçado
de parecer que vejo
para nunca tocar o que vejo
como bolhas de sabão que voam livres
e eu não lhes toco
e o espaço delas
ocupa o meu tempo
de ser o que é e de não ser
em cada bolha de sabão
entre o tempo e o espaço
entre o zero e o zero infinitamente.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Escrever os sons.

A nossa Língua é a nossa identidade e é o melhor som, o mais aproximado dos sons todos, que ainda agora fazem eco dos sons de Portugal, espalhado pelos cantos todos. Mudar o que cresceu ao longo de centenas de anos, ganhando ser e tendo saudades do que é nosso, só, porque não o valorizamos, é acabar nisto, neste vazio de um fado triste, de ter tido Pessoa e ver dos mais belos textos do Mundo, traduções para uma Língua, que dizem, ser a dele, a dos textos e é só, a dos ecos, a dos locais diferentes.
Em 2009 e com o lirismo, de ainda viver, como se tudo fosse leve, fiz um texto, que agora, no peso, que me aguenta vivo, reli.
Tenho orgulho em ser português, das tripas de sacrifício até aos melhores queijos do mundo, da pena de morte até à revolução dos cravos, do nosso Manuelino até ao barroco de talha dourada e azulejos. Bocage a tua essência é nossa, Camões e Miranda e Lobo e até os navegadores e os que mentem e os que caminham é deles o que é nosso. De Eça a Pessoa intemporal, Almada arregalado e tantos outros que marcaram épocas e autos com barcas que ainda agora navegam e movem o meu orgulho.
A língua que eu falo e com a qual tento escrever, do latim emanou como a mais bela, mais de mil anos a foram burilando, atenuando arcaísmos, assimilando outras línguas gota a gota, num preciosismo que a preservou como fonte limpa. Em todo o Mundo correu a água de Portugal, e das areias, das terras, do calor e das gentes novas se ergueram novos sons, que por mais belos que sejam, não são os de Pessoa e aqui entre nós quem tem Pessoa, tem os sons que não se podem perder, a musica das ideias, o desfazer de tudo na reconstrução de tudo, como quem desfaz para reconstruir da mesma maneira, sabedor como quem está para morrer, do mistério das coisas que afinal é só o mistério de sermos, marçanos que pensam, e por muito que pensem, nunca haverá sonhos de meninos e rebanhos fora de Portugal, das nossas saudades do nosso nevoeiro, que a mente exagera e ao som da mais bela Língua se faz musica.
O tempo de uma forma natural, lenta e certa, foi-nos traduzindo Camões e seus pares, amadurecendo com a sabedoria do tempo a língua viva que é a nossa. Os segredos de estado Americanos são guardados por mais tempo, do que o tempo que nós parecemos dispostos a dar aos mais belos sons, às mais perfeitas uniões de palavras que nenhuma língua além da nossa atingiu.
O latim em cada canto deu sua língua, morreu deixando descendentes. O Português em cada canto se fez outra língua, quentes, dolentes, diferentes, repletas de sons maravilhosos mas não é por ser maravilhoso o canto do rouxinol, que o vamos absorver como se fosse nosso. Aceitar as pequenas e as grandes diferenças, que pelo Mundo se espalharam de uma raiz comum é aceitar que se vão fazendo iguais, as plantas que têm que ser diferentes, tantas são as diferenças nas terras, nos ritmos de vida, no clima e nas gentes plantadas por esse Mundo.
Aceitam os ingleses assimilar os ritmos e os sons que pelo Mundo espalharam e agora parecem ser um eco com vida própria? NÃO. Aceitamos nós a Madeira e os Açores, o Alentejo e o Algarve e todos os pedacinhos de Portugal como parceiros para definir uma língua ainda mais comum? NÂO. Do latim se fizeram línguas, do português que se façam línguas, diferentes pelas necessidades e engenhos mas iguais nas vidas que lentas as mantêm vivas, no sabor e necessidades de cada canto.






domingo, 8 de janeiro de 2012

Jorge Manuel Domingues Gouveia Braga DEVANEIOS

É esse o meu nome, a 3 de Janeiro, fui eu a figurinha, que passou nos 30 minutos, a seguir ao "Figo, Futre Natal " como " jardineiro Poeta". Fiz uma pesquisa na NET para constatar a quantidade de "Jorges e de Bragas" nos mais variados locais e ramos de actividade, já sabia do ginecologista Jorge Sousa Braga, por intermédio de Manuel Pina e tenho um primo chamado Jorge Braga, não sonhava era com tantos, identificados com os mesmos nomes.
Um galho para cada macaco, sirva ou não sirva, no tamanho e no oficio.O que faço espalha o que sou, umas vezes mal, outras bem, numa osmose constante, numa permanente troca de sabores, que nem sempre são doces, que nem sempre parecem valer a pena. Jardinei a minha cabeça desde sempre, por isso repousava a cabeça, nas mãos e na terra que remexia, mas isso já se acabou, na rotina, que em tudo se assenta como poeira, de cores novas, de tempos novos.
A 3 de Julho, vão ser três anos, de o ter tido morto nos braços, a doze de Janeiro, vinte e cinco anos, vespera de o ter tido, nos braços, pequenino e lindo, agora é o que tenho, em casa e o que sinto com ele e com os meus de desabafos, de tudo parecer errado, nesta certeza que subsiste viva, na dele, na minha, na nossa vida.
Escrevia por necessidade, agora faço-o como necessidade e a quem me diz, que não entende, eu só  poderei responder, que sofro do mesmo mal, não entendo, só sinto a alma que desconheço, o espirito que não acredito, só sinto o conciliar do real, com o que adormeço, na areia cada vez mais fina, de me enterrar nela cada vez mais fina e irreal.
O Mundo é como um aquário, vasto para muitos, que nele se perdem, nunca o sabendo, ou pequeno do tamanho do meu, de andar perdido e saber o sabor das estrelas, nas mãos que não as agarram, cansadas da cabeça, que seguram, como chão de cada voo, como amarras de um naufrágio.
Ser poeta é ser parte de tudo e nunca o conseguir, a face errada de um espelho, que se esfrega, de parecer a luz, que nunca lhe pertenceu.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

14 Dependências

1
As linhas estendem-se brancas
e as folhas brancas
na queda que as ergue
alongam imagens que parecem ideias
embora nenhuma
consiga o sorriso interior
de haver luz e beleza
nas folhas brancas caídas.

No erguer de se soltarem
como se a beleza toda
nelas se contivesse
invisível
das ideias e das cores.

Tudo parece possível
em todas
as imagens brancas
de serem brancas
sempre brancas
as venturas e as ilusões
que se estendem, estendem
e deitadas se recolhem
lentas
num tempo que foi
e agora ainda regressa.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

13 Pontos de vista

2
Amanhece no carvalho, que parecia negro
e agora brilha com as cores da luz
que não são as dele de certeza
tanto variam ao longo do dia
que se acaba
num entardecer de regresso
às funções básicas
ao desperdício constante
do lucro permanente de estar vivo.

As folhas caem e eu a todas piso
de não as sentir como a folha que sou
ganhando as cores que parece ter
nas cores que constante perde
de terem sido as cores de tudo
de todos
e sempre de ninguém
tantas são as sensações
que todos podem sentir
de mãos abertas
como folhas de Outono
caídas
mortas
no frenesim de se renovarem.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

R T P

Amanhã 3 de janeiro, vai ser transmitido na RTP 1, pelas 21 horas, o programa sobre o que eu escrevo e que o jornalista Alberto Serra idealizou com as imagens que Rui Castro recolheu.
Espero que esta demora tenha valido a pena. 

domingo, 1 de janeiro de 2012

12 A B C

1
Tudo é excessivamente neutro
antes de ser nosso.

Parece que estrago o que toco
quando tento que se faça meu
o que toco.

Numa aprendizagem impossível
do que se ganha perdendo
tudo parece emprestado
a um longo jogo de lerpa
neutro até
no escorregar da sorte
que nos permite lerpar.