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domingo, 11 de dezembro de 2011

Continuação

Quando as palavras escritas atingem níveis de beleza lúcida, de pensamento criativo, muito além do génio comum, ficam estanques, herméticas, vibrantes como correntes de música e som impossíveis de contornar, num tempo só delas que os afortunados que as podem, agradecidos bebem e agradecidos longamente tentam.
Leio a Tabacaria desde os quinze anos, não comecei Campos com ela mas, quando a descobri, sensações para as quais nem busco palavras, na vergonha de as sentir vãs e vazias, me inundaram num Mundo que sentia com sentido na falta dele, destruído e reconstruído estância a estância para que o sentido de tudo seja sempre o sentido de nada e o acaso tudo leva e tudo apaga na metafísica, que é uma “consequência de estar mal disposto”.
Tentei ao longo dos anos abranger, um pouco, sempre um pouco do que o tempo e o meu estado de espírito me permitiam das páginas sublimes de um texto que tenta o Universo para se firmar grandioso e tão vasto no monta e desmonta da Humanidade perdulária. Nunca o conseguirei mas hoje que as minhas esperanças voaram estéreis e vazias, hoje tudo eu posso tentar, não há derrota que me derrube, nem vitória que me possa elevar, do cansaço que se fez negro e buraco e buraco, negro.

Não ser nada mas do mundo ter as hipóteses todas. Olhar alheio e desconhecido e fútil para o mistério da vida e dos seres, que é real e certo como a morte que tudo leva para o nada.
Sentir da verdade a derrota, o estar desligado e por isso lúcido e, ao partir, de tudo sentir a explicação palpitante de já ser alheio. Sentir que tudo é sonho, sentir o que pensa como outra realidade e ficar dividido, entre o que é e o que parece, entre o achado e o perdido.
Tudo e nada, extremos que se tocam ao sabor das vontades, do acaso que parece tornar tudo tão igual, que até bloqueia o pensamento e o faz pensar em pensar. O acaso brinca com os seres e o que serão, são tantos para tão pouco e o sonho a todos alcança e todos pensam poder o que poucos, muito poucos, poderão.
Tudo se faz vasto e distante, o gozo do mais simples se perde, ao tentar explicar o que é para ser sentido e só assim se explica. Pensar e pensar, numa insatisfação que parece infinita, mas que vai guardando do impossível, a certeza amarga de um destino que sem lágrimas sente ser o seu e estóico aguarda.

8 de Dezembro Festa da Poesia Matosinhos

Encontrei Alberto Serra, conheci Manuel Pina como um refresco de consciência, da minha, tão fresco e sereno o senti.O Serra informou-me de um programa, que por acaso é sobre o que escrevo, o que vivo ou talvez o que morro de instantes e esperas, afinal, esse programa já esta pronto. Ainda não o vi, aguardo e guardo este longo hiato, tão fácil de romper por um simples telemovel.
O programa do dia da poesia, falhou no horario, tudo se atrasou e contudo foi bom, no pouco que consegui ouvir, consegui participar, alheando-me para poder sentir que tudo já está dito e só resta copiar ou roubar, nesta indefenição do que é a Poesia, da parte de quem sabe, enquanto o D. Guilherme Pinto ao falar do que é prosaico e do que não é, me recordou Caeiro, o marçano do que é simples e Campos, o marçano inventor do que complica, como recreio de um jardim de todos e tudo é prosa.
Ver para crer, aguardar e sentado se for possível, o Mundo é feito de promessas e verdades, aguardo e vivo em cada segundo, a promessa e a verdade de cada um, a promessa, a mentira e a verdade de cada um.
Reli e aqui coloco o meu entreter da cabeça de 2009, quando o meu Luís disparatou, aconselho o texto da Tabacaria, para acompanhamento e complemento.

domingo, 4 de dezembro de 2011

16 Cristal

estando vivo
se ganha a competência de morrer
sendo recordado
se pode ser esquecido
e é só
do que passa
e parecendo nada deixar
que se amontoam as despedidas
e as partidas constantes
de nem todas serem fáceis
só.

sábado, 3 de dezembro de 2011

15 Medidas

37
O suicídio de cada dia
adormece na medida de cada dia
e acorda na medida que finda
em cada dia.

Tudo está bem feito
e a corrida corre connosco
numa meta que é sempre um inicio
na medida de cada segundo
na medida de cada vida
no acabar de cada dia
nas medidas sempre certas
de um caminhar sempre incerto.

O suicídio de cada dia
acaba todos os dias
e do refresco de acabarem
se faz o continuar
desta missa de orações esquecidas
que se prolonga no adro
no cheiro das flores que secam
e no cemitério ao lado.

15 Medidas


9
JULHO
Já nem me sinto culpado
sinto a culpa toda
a culpa de uma condenação
que dei em vez de receber.

Os passos todos que foram dados
e tantos tiveram a preocupação
de mo anunciar
ficaram gravados no meu sempre
ao lado, em redor
por dentro e por fora de tudo.

Nestes dois anos uma vida mais longa
do que a minha
anseia embebedar os instantes todos
e nem isso pode.

Parecem vómitos que me sufocam
constantes de os saber meus
para sempre
de os guardar nesta bebedeira
de não a ter em cada instante
nos passos todos
que foram dados
e no meu sempre
para sempre colados.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

14 Dependências

34
Da bebedeira de estar vivo
sobra sempre a ressaca
de estar vivo
de um dia passear nas estrelas
e no outro das Marianas
sentir as Fossas que se erguem
de estarem lá, no sitio sempre certo
de as encontrar e de as perder.

O tempero aguarda o paladar
do dia
do sal e do picante
de uns dias tudo ser jantar
e noutros
se levantarem os momentos todos
para que noutros
tudo pareça deitar
o que ainda nem se levantou.

Um travesseiro que desligue
esta bebedeira dos sentidos
que permita da ressaca dos momentos
o desligar dela
no descanso dos passamentos
dos passatempos
dos pensamentos.

16 Cristal

Um menino de três anos foi posto a lavar
e morreu
vivo em excesso, na opinião de quem o cuidava,
ou do pai que o centrifugou
das culpas todas, dele, dele, só dele
que o matou.

Aonde se encontra a vida desse pai
neste momento?
Deveria estar morto, mentalmente morto
e contudo é gente ainda
com direitos essenciais que não deu
mas que lhe vão ser dados
como à mãe que calou e assim consentiu
este desfecho.

O pedofilo belga queixou-se
da luz que lhe apagavam cedo
não reclamou da escuridão nem dos maus tratos
que ofereceu às meninas que matou.
Este talvez se queixe da roupa mal lavada
ou mal passada
enquanto a Justiça, preservando os direitos de todos,
o mantiver preso e vivo.